Carnaval, a utopia brasileira. Por Abrão Slavutsky.

De criança participava de um baile infantil no Bom Fim, que era a melhor festa do ano. Confete, serpentina, lança-perfume e liberdade de correr e brincar no meio das danças e músicas de carnaval. Era uma viagem a outro mundo, um mundo só de alegria. Faz bem à saúde desfrutar da imaginação, recordar a infância ou  ir embora para Pasárgada. Ir, é claro,  com Manuel Bandeira e sonhar que uma outra vida é possível. Sim, porque, se deixarmos de imaginar, sonhar, a vida empobrece e aborrece. Logo, sugiro entrar no ritmo do samba e sonhar neste carnaval.

O carnaval é o ritual brasileiro por excelência, está em todo o País. Oswald de Andrade, no seu Manifesto do Pau Brasil, 1924, define o carnaval como o acontecimento religioso da raça. É uma festa indispensável para celebrar, e isso os negros africanos ensinaram desde as origens do homo sapiens. O carnaval tem o ritmo, tem a batida, o entusiasmo que os negros aprenderam a viver mesmo diante dos sofrimentos. O carnaval é o sonho, o desejo, o semblante, as máscaras que nos constituem. Muito diferente dos rituais religiosos e das marchas militares, o carnaval é a expressão da alegria e da rebeldia popular. Os quatro dias de carnaval, vividos pelas escolas de samba o ano todo, são os dias de um Brasil relegado. O Brasil marcado pelo preconceito racial e pela desigualdade social tem no carnaval a possibilidade de ocupar as principais passarelas. Os pobres, negros e brancos, ocupam as ruas, as televisões, dominando o País. O carnaval é a utopia brasileira, um sonho distante, que foi fortalecido no ano passado.

O desfile da Escola de Samba Paraíso da Tuiuti em 2018, com seu enredo Meu Deus! meu Deus! Está extinta a escravidão?, marca não só a história do carnaval como a do País. Memorável a Comissão de Frente representando o sofrimento da Senzala, o capataz açoitando, os pretos velhos abençoando e curando os escravos. O livro que inspirou os líderes da Escola foi A Elite do atraso, de Jessé Souza. Enfim, o Brasil e o mundo puderam ver um pouco do que foi e o que é a relação a Casa Grande e a Senzala, hoje representadas pelos poderosos e os pobres. A Comissão de Frente da Paraíso do Tuiuti acusa o maltrato da escravidão e denuncia o atual racismo brasileiro. Pouco tempo depois desse desfile do ano passado seria assassinada a vereadora Marielle Franco do PSOL. Ela vinha denunciando o assassinato de jovens negros nas favelas. O desfile revelou o quanto os trabalhadores de hoje são os escravos de ontem.

Agora, em 2019, o desfile das escolas de samba promete seguir mostrando uma realidade que não aparece nos noticiários. A Paraíso do Tuiuti vem com o enredo O salvador da Pátria em homenagem ao presidente Lula através do personagem cearense Bode Ioiô, o bode do Ceará, uma figura popular do folclore local. E ainda haverá o desfile tão esperado da escola Estação Primeira de Mangueira com o enredo Histórias para ninar gente grande. Esse samba faz referência aos anos de chumbo, anos da ditadura militar, e busca contar as histórias que a História não conta.

O carnaval termina na quarta-feira de cinzas, o sonho acaba e recomeça a dura realidade. Os sonhos em geral não devem ser desprezados, pois foi a interpretação do sonho noturno que revelou a realidade psíquica e os desejos inconscientes. Por outro lado, o sonho diurno pode ser a esperança, a utopia, a busca de um norte para caminhar. Precisamos sonhar, sonhos noturnos e diurnos,  para viver melhor. O sonho do carnaval termina, mas ficam as mensagens da Tuiuti, da Mangueira. Portanto, vamos ver um Brasil que dança e canta no asfalto os desejos de mudança. São dois brasis que convivem: um o dos cinco poderes, que luta por uma pátria dominada,  triste, servil,  e alegre para poucos; o outro é o sonho de um Brasil que canta e dança, um Brasil de todos. Uma última imaginação: existe a possibilidade de que neste carnaval o gigante anestesiado comece a despertar.