A produção da tragédia na Escola Estadual Professor Raul Brasil. Por Paula Fontana Fonseca.

A produção da tragédia na Escola Estadual Professor Raul Brasil

Paula Fontana Fonseca[1]

O dia 13 de março de 2019 estava sendo vivido com a intensidade de ser a véspera de se completar um ano da execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, na cidade do Rio de Janeiro. A mídia anunciava a prisão de dois suspeitos de atuarem no crime, o policial reformado Ronnie Lessa teria sido o autor dos disparos, enquanto o ex-PM Élcio Queiroz teria desempenhado a função de motorista no Cobalt prata. Quem seria o mandante desse crime brutal que retirou a vida de uma mulher negra, mãe, moradora da comunidade da Maré, que tinha uma companheira mulher e era uma vereadora em ascensão por sua atuação decidida no campo dos Diretos Humanos em uma cidade sitiada e assombrada pelas milícias?

Por volta de meio dia, nossas vidas foram atravessadas por outro acontecimento brutal. Dois rapazes haviam entrado na Escola Estadual Prof. Raul Brasil, no município de Suzano, no Estado de São Paulo, e atentado contra a vida dos alunos e funcionários da escola durante o intervalo, atingindo dezenas de pessoas e fazendo sete vítimas fatais: a coordenadora pedagógica Marilena Ferreira Vieira Umezo, a inspetora Eliana Regina de Oliveira Xavier e os alunos do ensino médio Caio Oliveira, Claiton Antônio Ribeiro, Douglas Murilo Celestino, Kaio Lucas da Costa Limeira e Samuel Melquíades Silva de Oliveira. Soma-se ao número de vítimas fatais, o tio de um dos rapazes que foi morto minutos antes e os próprios assassinos.

            Qual a relação entre essas duas situações trágicas?

            Antes de avançarmos nesse ponto, será necessário tecer considerações acerca da educação pública no Brasil de hoje. Um dos efeitos imediatos desse massacre foi a busca ativa, sobretudo por parte da imprensa, das razões que teriam motivado dois ex-alunos da escola a cometer um ato desumano desse porte. As imagens feitas, no calor do momento, da mãe de um deles sendo entrevistada por um repórter, revelam que a mídia segue firme a opção sensacionalista. A despeito da tentativa de esquivar-se daquela situação incômoda, o repórter seguia inquirindo se ela se sentia culpada pelos atos do filho.  Outra reportagem, feita algumas horas depois, mostrava o quarto do rapaz de 17 anos. A mãe afirmava que não entendia por que o filho faria aquilo, justo ele que tinha tudo – tv, videogame… Essa mesma mãe era falada na mídia como sendo usuária de drogas e tendo vários filhos, cada um deles de um pai diferente.

            Qual a importância disso tudo nesse contexto dramático e violento? Um fantasma que assombra a psicologia moderna desde sua invenção como campo científico recobra sua força: culpar pessoas por aquilo que é nomeado como uma incapacidade – seja de aprender, seja de educar, de ser mãe… Revitimizar a vítima, ou seja, atribuir a uma pessoa em situação de vulnerabilidade social a culpa pela situação de vulnerabilidade em que vive. Silenciar acerca de um pai ausente ao apontar a mãe como alguém que não tem parceiro fixo – a famosa família desestruturada de laudos psicológicos de outrora – é culpá-la pelo fato de gerar uma criança sem pai. A mulher pobre segue sendo problema dela mesma. O pai segue sua vida anônima. E o jornalismo padece de uma falta de ética nefasta que deveria ser mais bem discutida pelos profissionais da área.

No campo da Psicologia Escolar, os trabalhos da professora Maria Helena Souza Patto foram fundamentais para que se operasse um deslocamento no que se entendia como sendo objeto dessa disciplina. Se até os anos 80 imperava uma psicologia adaptacionista que localizava na criança e sua família a raiz dos problemas vividos na instituição educacional, de lá para cá nossa atuação tem criticado essa concepção individualizante e constituindo um novo campo de investigação e atuação que considera as dinâmicas institucionais, as políticas públicas e as concepções arraigadas em nossa sociedade – como forças presentes e decisivas na produção do que se convencionou chamar de “problemas escolares”. Um material atual que deveria ser de consulta obrigatória para todo e qualquer projeto que pretenda estreitar a atuação do psicólogo no campo escolar, são os quatro cadernos de debate do Núcleo de Apoio e Acompanhamento para Aprendizagem (NAAPA), implantado em 2015 no município de São Paulo. Especialmente o terceiro volume que se dedica a propor normativas e orientações para uma atuação dos profissionais especialistas junto às unidades educacionais (https://www.sinesp.org.br/images/22_-_CADERNO_DE_DEBATES_DO_NAAPA_ORIENTACOES_NORMATIVAS_VOL_3.pdf).

O professor da Faculdade de Educação da USP, José Sérgio Fonseca de Carvalho, em seu prefácio ao livro comemorativo dos 40 anos do Serviço de Psicologia Escolar do IPUSP, afirma que, nessa nova forma de conceber a interface da Psicologia com a Educação, “não se trata, pois, de diagnosticar supostas insuficiências ou dificuldades atribuídas a um individuo em decorrência de características pessoais ou sociais, mas de desvelar formas pelas quais se produzem relações, diagnósticos, estigmatizações e discursos acerca dos sujeitos implicados na relação educativa” (2017, p. 11, https://www.blucher.com.br/livro/detalhes/concepcoes-e-proposicoes-em-psicologia-e-educacao-1363).

            Outra fala que recai em um lugar comum é culpar a própria escola, atacar a educação pública, desqualificar a equipe educativa. Teriam percebido que o rapaz não frequentava mais as aulas? Teriam feito algo quanto ao bullyingque o aluno sofria? Foram relapsos? A hipocrisia da sociedade hoje não tem limites – será que hipocrisia tem limite? Os investimentos em educação no estado de São Paulo vêm decaindo  – https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2018/09/sob-alckmin-sp-perde-a-lideranca-nas-tres-etapas-da-educacao-basica.shtml– e está em curso uma tentativa de sucateamento e reorganização, sobretudo do ensino médio, que já foi, inclusive, motivadora de ocupações feitas por alunos da rede estadual nos anos de 2015 e 2016. Vejam, a esse respeito, os belos filmes “Lute como uma menina” e “Escolas em luta”. Se o Estado se isenta de sua responsabilidade com falas evasivas, as consequências são desastrosas. Ainda que essa tragédia tenha um componente totalmente imprevisível, não podemos negar que aconteceu em uma escola estadual e que isso não só é digno de nota como exige uma atuação do Estado na garantia das condições para que o município de Suzano possa reabrir suas escolas e acolher as crianças e adolescentes receosos de um futuro que um dia lhes foi prometido por meio da Educação.

            Além disso, é necessário oferecer todo apoio à rede de atenção psicossocial (RAPS) da cidade que, em função do ocorrido, tem se organizado para acolher os cidadãos que se sentiram abalados e afetados pela tragédia, direta ou indiretamente. Os problemas que vivenciamos na saúde e na educação públicas não são tributários de profissionais desinteressados. Se, hoje, o munícipio de Suzano foi capaz de construir e gerir um plano de atendimento emergencial – contando com a participação do Estado, das Universidades públicas (USP, UNESP, UNICAMP) e da sociedade civil organizada -, isso se deve à existência da RAPS como estratégia potente de formação e de fortalecimento do trabalho em saúde mental na rede pública, um trabalho que existe em função do Sistema Único de Saúde (SUS). Ou seja, se não houvesse SUS não haveria uma estrutura pública construída com o propósito de atuar no território, criando estratégias de cuidado e pertencimento às populações menos favorecidas.

            Cabe destacar que o Estado de São Paulo ainda conta com três das grandes Universidades públicas do Brasil e que USP, UNESP e UNICAMP podem – em função de sua vocação pública e da articulação entre pesquisa, formação e extensão – somar-se à RAPS levando não só sua expertise, mas também sua solidariedade e respeito ao trabalho dos profissionais que já atuam e permanecerão atuando no município quando a situação emergencial passar.

            A fala do senador eleito por São Paulo, Major Olímpio, que afirmou que a tragédia teria sido evitada caso os professores estivessem armados, foi respondida pela própria comunidade susanense, que saiu às ruas no último dia 15 de março em uma passeata silenciosa, reivindicando o porte de livros e dizendo “não” ao armamento. O cidadão quer abraçar a professora, a merendeira, o policial, o colega de classe e honrar a memória de seus entes e amigos queridos, afirmando que a dignidade humana reside no respeito à vida como valor que não está disponível no mercado financeiro, que rifa direitos humanos em troca de bons negócios para grupos, esses sim minoritários, mas muito poderosos.

            Por fim, resta a pergunta que abriu essa breve reflexão: qual a relação entre esse terrível massacre e a execução da vereadora Marielle Franco?

Essa pergunta, para ser respondida, se desdobra em outras tantas: O armamento da sociedade está a serviço de quem? Quais são as pessoas mortas? Qual o perfil da nossa população prisional? O que tem sido criminalizado nos dias de hoje?

            Um ponto que tem ganhado destaque nessas redes de ódio fomentadas na internet é a reafirmação não só da supremacia branca, mas também do poder masculino como aquele que subjuga, domina e se impõe sobre o outro. Temos que falar sobre segurança, temos que falar sobre preconceito, sobre uma ideia de masculinidade tóxica atrelada ao poder de vida e morte sobre o outro e sobre si mesmo.

É função da educação, sobretudo no ensino médio, debater as concepções vigentes em nossa sociedade. Claro que não é culpa do governo Bolsonaro que um massacre como esse aconteça. Mas é necessário afirmar que o discurso de ódio que ele inflama, a forma como fala e trata as mulheres, suas escolhas para a pasta da Educação e sua seletividade acerca do que é justiça têm contribuído para o empoderamento do ódio, da segregação e da violência.

Não podemos esquecer que a Escola Estadual se chamava Professor RaulBrasil.

[1]Psicanalista. Doutora em Educação pela FEUSP. Psicóloga do Serviço de Psicologia Escolar do IPUSP.