Relendo os clássicos da teoria do fascismo em 2018: uma tarefa necessária. Márcio Seligmann-Silva

Biblioteca. Reprodução internet.

As teorias do fascismo, de repente, tornaram-se absolutamente dignas de serem revisitadas. É imperativo agora relembrar as teorias que foram fruto da experiência histórica do nazifascismo e cujas ideias nos são surpreendentemente atuais hoje. Só assim poderemos sair da posição melancólica, fazendo aquilo que sabemos fazer: analisar e desconstruir os discursos que nos enredam. Assumindo essa posição ativa conquistamos um empoderamento psicológico e epistemológico.

Retomar o ensaio de Freud de 1921, “Psicologia das massas e análise do eu”, pode, de início, deixar o leitor um tanto desorientado. Afinal Freud, que em 1938, após a anexação da Áustria pelos nazistas, teve que se refugiar em Londres e perdeu 4 de suas 5 irmãs em campos de concentração (Regine em Auschwitz, Mitzi em Theresienstadt, Dolfi e Paula em Treblinka), parece entusiasmado com as ideias de Gustave Le Bon, expressadas em seu famoso livro Psychologie des Foules, de 1895. Esse livro, como é conhecido, foi louvado por Mussolini e por Hitler e isso com toda a razão, pois as ideias de Le Bon se coadunam perfeitamente com o pensamento nazifascista. A desorientação do leitor do texto de Freud, no entanto, recua na medida em que percebe como o pai da psicanálise se apropria das teses de Le Bon. Ele se apropria delas para desmontá-las. Se Le Bon estava preocupado em como podemos domar as massas cegas e manipuláveis, Freud vai mostrar que por detrás dessa concepção política de Le Bon aninha-se um pensamento autoritário.

Totaitarismo
Hitler é saudado por membros da Juventude Hitlerista na década de 30. Reprodução internet: todaamateria.com.br

Foi Freud quem trouxe de modo efetivo a figura do Unheimlich para a reflexão teórica. Ele apontou para esse ominoso que nos habita. Esse estranho-familiar, esse próximo-distante nos caracteriza. Da mesma maneira, ele mostra, nesse ensaio de 1921, em que medida nossos recalques originários determinam muito de nosso comportamento, sobretudo quando se trata de se tentar compreender o mecanismos do totalitarismo. Psicologia das massas e análise do eu é um tratado acerca dos totalitarismos do século XX, antes mesmo que se pudesse vislumbrar que esses regimes mudariam a face daquele século. Ele também nos ajuda a pensar criticamente a atual ascensão do fascismo aqui e no mundo. Para desconstruir o ovo da serpente, quando ele estava sendo ainda chocado, ele recorre aos teóricos da multidão. Assim, ele inicia seu texto elencando as teorias de psicologia de massa que lhe antecederam. Vale a pena citar a passagem onde Freud retoma a teoria de Le Bon, uma mostra eloquente de uma linhagem da teoria política que remonta a Hobbes, Burke e Nietzsche, autores que pensavam o poder na chave de sua relação com a manipulação de forças sublimes que dormitam na massa:

Inclinada a todos os extremos, a massa também é excitada apenas por estímulos desmedidos. Quem quiser influir sobre ela, não necessita medir logicamente os argumentos; deve pintar com as imagens mais fortes, exagerar e sempre repetir a mesma coisa. Como a massa não tem dúvidas quanto ao que é verdadeiro ou falso, e tem consciência da sua enorme força, ela é, ao mesmo tempo, intolerante e crente na autoridade. Ela respeita a força, e deixa-se influenciar apenas moderadamente pela bondade, que para ela é uma espécie de fraqueza. O que ela exige de seus heróis é fortaleza, até mesmo violência. Quer ser dominada e oprimida, quer temer os seus senhores. No fundo inteiramente conservadora, tem profunda aversão a todos os progressos e inovações, e ilimitada reverência pela tradição (p. 37). Para julgar corretamente a moralidade das massas, deve-se levar em consideração que, ao se reunirem os indivíduos numa massa, todas as inibições individuais caem por terra e todos os instintos* cruéis, brutais, destrutivos, que dormitam no ser humano, como vestígios dos primórdios do tempo, são despertados para a livre satisfação instintiva. Mas as massas são também capazes, sob influência da sugestão, de elevadas provas de renúncia, desinteresse, devoção a um ideal. Enquanto a vantagem pessoal, no indivíduo isolado, é quase que o único móvel de ação, nas massas ela raramente predomina. Pode-se falar de uma moralização do indivíduo pela massa (p. 39). Enquanto a capacidade intelectual da massa está bem abaixo daquela do indivíduo, sua conduta ética tanto pode ultrapassar esse nível como descer bem abaixo dele. (2011: 27)

Freud detecta aí uma coincidência com a vida anímica dos povos primitivos e da criança. A massa, crianças e neuróticos, para Freud, admitem pacificamente a coexistência de ideias opostas. O mesmo valendo para o poder mágico das palavras – tema central quando se trata de entender os totalitarismos com suas novilínguas. Quanto ao fato de que para Le Bon as massas preferem as ilusões à verdade, Freud também vê aí uma analogia com a vida do neurótico:as massas nunca tiveram a sede da verdade. Requerem ilusões, às quais não podem renunciar. Nelas o irreal tem primazia sobre o real, o que não é verdadeiro as influencia quase tão fortemente quanto o verdadeiro. Elas têm a visível tendência de não fazer distinção entre os dois.” (2011: 29) (“Die Massen haben nie den Wahrheitsdurst gekannt. Sie fordern Illusionen, auf die sie nicht verzichten können. Das Irreale hat bei ihnen stets den Vorrang vor dem Realen, das Unwirkliche beeinflußt sie fast ebenso stark wie das Wirkliche. Sie haben die sichtliche Tendenz, zwischen beiden keinen Unterschied zu machen. ibid., 47)

Outro aspecto da análise que Le Bon faz da massa e que interessa a Freud, é o prestígio que é projetado em seu líder. Mas Freud discorda fundamentalmente da origem que Le Bon atribui a esse prestigio (ou seja, ele seria ou artificial e calcado em um nome, bens e reputação, ou seria natural e explicado por um encanto magnético do líder). (Freud 2011, 31)

            Freud volta-se ainda para uma leitura crítica de MacDougall e de seu livro The group mind. Para esse autor, a massa seria o fruto do “princípio de indução direta da emoção por meio da resposta simpática primitiva” (Apud Freud 2011, 35), ou seja, McDougall fala de um princípio mimético, uma “coação automática”,  que leva o indivíduo a se fundir na massa. Ocorre então uma intensificação do afeto e uma inibição da inteligência. Para ele, a massa seria “totalmente excitável, impulsiva, apaixonada, instável, inconsequente, indecisa e, no entanto, inclinada a ações extremas”. (Freud 2011, 37) Podemos imaginar como Hitler e outros tiranos também poderiam ter se deliciado com essa teoria.

            Freud vê tanto em Le Bon como em McDougall uma falsa explicação no fenômeno da massa, baseada em uma noção equivocada de sugestão. Por detrás da sugestibilidade haveria um fenômeno mais originário. Freud apresenta a hipótese segundo a qual, por detrás da “alma coletiva” atua as relações de amor. Como para Platão, também para Freud é o amor, Eros, que mantém a massa unida. Na verdade o amor, assim como a compaixão, cria laços que fazem com que os de fora se transformem em estranhos e não dignos de amor ou compaixão. Esse é o poder e o calcanhar de Aquiles de toda teoria política que pretende estabelecer a comunidade e seus laços a partir do amor ou da compaixão. Freud, é claro, logo destaca isso em seu ensaio: “mesmo durante o reinado de Cristo se acham fora dessa ligação [do amor comum a Cristo] os indivíduos que não pertencem à comunidade de fé, que não o amam e que ele não ama; por isso uma religião, mesmo que se denomine a religião do amor, tem de ser dura e sem amor para com aqueles que não pertencem a ela. No fundo, toda religião é uma religião de amor para aqueles que a abraçam, e tende à crueldade e à intolerância para com os não seguidores.” Ou seja, o amor não é uma garantia da paz ou da harmonia – estas, como lembrava Kant, só existem na morte ou no cemitério. E continuando esse raciocínio, Freud primeiro se equivoca, ao achar que o ódio outricida estaria arrefecido em sua época, mas logo nos desperta para a virada político-teológica: as novas religiões são orquestradas pela política: “Se agora essa intolerância não se mostra tão violenta e cruel como no passado, não será lícito concluir que houve uma suavização dos costumes humanos. A causa deve ser buscada, isto sim, no inegável enfraquecimento dos sentimentos religiosos e das ligações libidinais que deles dependem. Se outra ligação de massa toma o lugar da religiosa, como a socialista parece estar fazendo [noto que estamos em 1921, Freud não podia saber o que aconteceria em 1933], ocorre a mesma intolerância com os de fora que havia na época das lutas religiosas, e se as diferenças de concepções científicas viessem a ter, algum dia, importância igual para as massas, o mesmo resultado se repetiria também com essa motivação.” (2011: 54) Ou seja, tanto a religião, como a política e a ciência podem estar na origem da crueldade e da intolerância. No século XX essas três instâncias se juntaram, de um modo bombástico. Freud, no limiar do século, já (ante)lia as feridas e traumas dessa época.

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Totem e Tabu. Reprodução internet.

Com um tom bem hobbesiano, Freud declara que “O sentimento social repousa […] na inversão de um sentimento hostil em um laço de tom positivo, da natureza de uma identificação. Até onde podemos enxergar hoje esse curso de eventos, tal inversão parece ocorrer sob influência de um laço afetuoso comum a uma pessoa que está fora da massa” (Freud 2011, 83), a saber, o líder. Aqui percebemos também a figura do líder pensado na mesma época por Carl Schmitt e Benjamin como aquele que está fora da massa e decide. Para Freud, como ele notou ao analisar as massas artificiais, a Igreja e o Exército, todos querem ser igualmente amados pelo líder: “Os indivíduos todos devem ser iguais entre si, mas todos querem ser dominados por um só.” (Freud 2011: 83) Estamos diante de uma poderosa análise daquilo que Étinenne de La Boetie (1530-1563) chamou de “servidão voluntária”. Ao contrário do que Trotter afirmara, em tom que recorda Rousseau, o ser humano não seria um animal de rebanho, Herdentier, mas sim um animal de horda, Hordentier. Nesse momento Freud retoma sua tese da horda primeva que ele desenvolvera em Totem e Tabu. Ele vai postular que a massa seria a revivescência da horda primeva e a psicologia da massa a mais antiga psicologia humana. (Freud 2011, 85) O pai todo poderoso dessa horda seria uma figura absolutamente narcísica, sem investimento objetal que só amava a si mesmo. “No princípio da história humana ele era o super-homem, que Nietzsche aguardava apenas para o futuro.” (2011: 86) Em compensação, os filhos que viviam na abstinência sexual, por imposição do pai, criaram laços entre si. A psicologia da massa, quer dizer, os laços afetivos que ligavam estes irmãos, teve origem nos ciúmes sexuais. Ou seja, para Freud, no início da vida em comum está o ciúme e não o amor. A veneração que caracteriza a relação da massa com seu líder, seria paralela à força que emana do hipnotizador e ambas um resquício da força do pai originário.

 

 

O ensaio se fecha formulando que a cultura deriva da sublimação dos instintos sexuais, o grupo se constrói em ligações calcadas na inibição das metas das pulsões. Dessa estrutura Freud depois desdobraria o que denominou de Unbehagen, mal-estar, sentimento de desamparo, que para ele caracteriza a cultura. (Freud 2010) A psicologia da massa permite um olhar crítico sobre o nosso presente. Por outro lado também, a psicanálise porta um espaço para a formulação das narrativas silenciadas dos sobreviventes dessa violência. Ao dedicar sua teoria ao que Benjamin denominou de facies hipocrática da história, a psicanálise reforça o seu olhar crítico e transformador sobre o presente. Sem esse aspecto político a que ela nos abre, ela correria o risco de se tornar mais uma técnica a serviço do aparato biopolítico. Concluo então citando as sábias palavras de Betty Fuks de seu ensaio sobre O homem Moisés e a religião monoteísta: “Observa-se que Freud, longe de evocar um código moral e valores universais para diminuir os imperativos de gozo do supereu cultural, convoca o  sujeito à responsabilidade de inventar um estilo próprio capaz de impor limites ao intolerável. E a ética como invenção singular é o que está em causa na psicanálise.” (2014: 178s.)

             Cerca de dez anos após essa publicação o discípulo rebelde do pai da psicanálise, Wilhelm Reich, conseguiu dar passos largos no desdobramento dessas lições em seu famoso ensaio Psicologia de Massas do Fascismo. Sem citar diretamente seu mestre, mas partindo de modo evidente dele, Reich busca em Marx e na sua experiência como médico ligado à classe trabalhadora subsídios para transformar a teoria da psicologia de massas em órgão do materialismo dialético. Não poderia resumir aqui esse longo e poderoso ensaio, mas não posso deixar de citar algumas passagens, sobretudo devido à atualidade desse pensamento gestado em pleno nazismo. Para Reich, o “‘fascismo’ não é mais do que a expressão politicamente organizada da estrutura de caráter do homem médio” ele é “a atitude emocional básica do homem oprimido pela civilização autoritária da máquina, com sua maneira mística e mecanicista de encarar a vida.” (s/d: XIX) Segundo ele, se considerarmos revolucionária a ação que pretende ir à raiz das coisas, o fascismo não pode ser considerado revolucionário. Mas, de modo que faz lembrar a Walter Benjamin no final de seu ensaio sobre a obra de arte na mesma época, ele escreve que o fascismo pode “aparecer sob o disfarce de emoções revolucionárias. Mas não se considerará revolucionário o médico que combate a doença com insultos, mas sim aquele que investiga as causas da doença com calma, coragem e consciência, e a combate. A revolta fascista”, continua Freud, “tem sempre origem na transformação de uma emoção revolucionária em ilusão, pelo medo da verdade.” (s/d: XX) Outro ponto fundamental e muito atual, que tem sido tratado com profundidade por autores como Achille Mbenbe, é que para Reich a teoria racial não é um produto do fascismo mas, antes, o fascismo é “um produto do ódio racial e a sua expressão politicamente organizada.” (s/d: XXI) A religiosidade também revelaria esse caráter sádico-perverso da ideologia de raça. Para Reich, como é conhecido, o homem orgasticamente impotente está condenado a uma autolimitação sexual que “transforma o caráter masoquista da velha religião patriarcal do sofrimento numa religião sádica.” (id.) Nessa passagem o fascismo culmina com o “assassínio sádico”, lembrando que esses trechos que cito são do prefácio de 1942, momento no qual Reich ainda não podia ter plena consciência da dimensão da Shoah. Mas é fundamental essa passagem pois já estabelece uma relação clara entre racismo, fascismo e ação genocida. E Reich desdobra sua análise com essas palavras atuais:

A mentalidade fascista é a mentalidade do “Zé Ninguém”, que é subjugado, sedento de autoridade e, ao mesmo tempo, revoltado. Não é por acaso que todos os ditadores fascistas são oriundos do ambiente reacionário do “Zé Ninguém”. O magnata industrial e o militarista feudal não fazem mais do que aproveitar-se deste fato social para os seus próprios fins, depois de ele se ter desenvolvido no domínio da repressão generalizada dos impulsos vitais. Sob a forma de fascismo, a civilização autoritária e mecanicista colhe no “Zé Ninguém” reprimido nada mais do que aquilo que ele semeou nas massas de seres humanos subjugados, por meio do misticismo, militarismo e automatismo durante séculos. O “Zé Ninguém” observou bem demais o comportamento do grande homem, e o reproduz de modo distorcido e grotesco. O fascista é o segundo sargento do exército gigantesco da nossa civilização industrial gravemente doente. Não é impunemente que o circo da alta política se apresenta perante o “Zé Ninguém”; pois o pequeno sargento excedeu em tudo o general imperialista: na música marcial, no passo de ganso, no comandar e no obedecer, no medo das ideias, na diplomacia, na estratégia e na tática, nos uniformes e nas paradas, nos enfeites e nas condecorações. Um imperador Guilherme foi em tudo isto simples “amador”, se comparado com um Hitler, filho de um pobre funcionário público. Quando um general “proletário” enche o peito de medalhas, trata-se do “Zé Ninguém” que não quer “ficar atrás” do “verdadeiro” general. (S/d: XXI)

O autor também estende-se em análises da ordem do nosso dia ao afirmar que os partidos marxistas da Europa fracassaram e declinaram por não ter conseguido entender o fascismo. (s/d: XXVIII) Para Reich, o marxismo fracassou ao não perceber o papel dinâmico da ideologia na história e a submeter aos fatos econômicos. A psicologia política deveria atentar para o fator subjetivo da história. Essa psicologia de massas que ele propõe e deriva de Marx (além de Freud, quase não citado) tem em seu centro o estudo da vida sexual: para ele “trata-se agora de incluir no edifício das ciências sociais não só as condições econômicas, mas também as condições de economia sexual.” (s/d: 16s.) Assim, ele percebe que “a ideologia imperialista transforma concretamente as estruturas das massas trabalhadoras, para servir o imperialismo.” (s/d: 21) Estamos em plena biopolítica, para falarmos com Foucault. Reich tenta dar um passo além de Freud: se este percebeu o mal-estar na cultura como tendo sua origem na contenção das pulsões sexuais e destrutivas, Reich tenta historicizar esse fato. Ele se pergunta “por que motivos sociológicos a sexualidade é reprimida pela sociedade e recalcada pelo indivíduo.” (s/d: 27) Ele associa a necessidade da repressão sexual às divisões de classe e ao surgimento do patriarcado. Políticas sexuais respondem a interesses de uma minoria instituindo a família e o casamento patriarcais. A reprodução da sociedade está associada a sua estrutura socioeconômica e sexual. A família é o núcleo desse constructo. Daí nos fascismos presenciarmos sempre essa obsessão pela família (verdade que vale também para 1964 e 2018). Ela é o micro estado. Ela é a base de toda ideologia:

A psicanálise de homens e mulheres de todas as idades, países e classes sociais leva às seguintes conclusões: a combinação da estrutura socioeconômica com a estrutura sexual da sociedade e a reprodução estrutural da sociedade verificam-se nos primeiros quatro ou cinco anos de vida, na família autoritária. A Igreja só continua essa função mais tarde. É por isso que o Estado autoritário tem o maior interesse na família autoritária; ela transformou-se numa fábrica onde as estruturas e ideologias do Estado são moldadas. (s/d: 28)

 

A Igreja dá apenas continuidade ao trabalho formatador da família: daí sua importância também nos estados fascistas. Reich continua:

A inibição moral da sexualidade natural na infância, cuja última etapa é o grave dano da sexualidade genital da criança, torna a criança medrosa, tímida, submissa, obediente, “boa“ e “dócil”, no sentido autoritário das palavras. Ela tem um efeito de paralisação sobre as forças de rebelião do homem, porque qualquer impulso vital é associado ao medo; e como sexo é um assunto proibido, há uma paralisação geral do pensamento e do espírito crítico. Em resumo, o objetivo da moralidade é a criação do indivíduo submisso que se adapta a ordem autoritária, apesar do sofrimento e da humilhação. Assim, a família é o Estado autoritário em miniatura, ao qual a criança deve aprender a se adaptar, como uma preparação para o ajustamento geral que será exigido dela mais tarde. A estrutura autoritária do homem é basicamente produzida — é necessário ter isto presente — através da fixação das inibições e medos sexuais na substância viva dos impulsos sexuais. (s/d: 28)

A mentalidade reacionária com o medo da liberdade são instaurados por meio de uma política sexual Se a repressão das necessidades materiais leva à revolta, a repressão sexual leva à passividade e adulação do pai/líder. O impulso agressivo vira sadismo. O militarismo e toda o mecanismo libidinoso desencadeado pelos uniformes e paradas militares são parte dessa perversão da revolta. (s/d: 30)

            Foi apenas com a crise de 29-32 e om a eleição de janeiro de 33 que a classe média passou a ser estudada pelas esquerdas. “A classe média começou a movimentar-se e apareceu como força social, sob a forma do fascismo.” (s/d: 42) O nacional-socialismo é antes de mais nada um movimento de classe média sendo que o seu conservadorismo reacionário, detecta Reich, dificilmente se abre para uma política de oposição. Isso foi mais do que comprovado no Brasil de 2018. Esse homem da classe média fica na posição entre as autoridades a quem deve obediência e os que estão abaixo dele. Essa posição Reich compara à do sargento: ele se torna uma caricatura de seus superiores. Ele adota a sua ideologia, ainda que sua situação material não corresponda a isso. Ele encontra-se clivado, conceito chave na psicologia de massa de Reich. Para concluir a passagem sobre esse ensaio sobre o fascismo citemos esse precioso passo sobre o mecanismo de compensação dessa frustação material por meio da força da pregação moralista:

Assim, no seu esforço para se diferenciar do trabalhador, ele [o homem da classe média] só pode apoiar-se na sua forma de vida familiar e sexual. Suas privações econômicas têm de ser compensadas por meio do moralismo sexual. No caso do funcionário público, esta motivação é o elemento mais importante de sua identificação com o poder. Uma vez que ele se encontra numa situação inferior à da classe média alta, mas mesmo assim se identifica com ela, é necessário que as ideologias sexuais moralistas compensem a insuficiência da situação econômica. Os modos de vida sexual e de vida cultural dela dependentes estão fundamentalmente ao serviço de uma diferenciação em relação à classe inferior. (s/d: 49; eu grifo)

O moralismo (fruto da biopolítica de controle que torna os corpos dóceis) atua tanto nessa compensação material da classe média, que se vê empoderada por um moralismo autoritário, como serve ainda de técnica de dispersão da oposição para as manobras políticas e econômicas.

Para concluir essa pequena arqueologia do fascismos, imperativa no Brasil e no mundo hodiernos, retomo ainda uma pequena passagem do capítulo “Elementos do antissemitismo” – que foi escrito por Adorno e Horkheimer com auxílio de Leo Löwenthal e acrescentado na edição de 1947 da Dialética do Esclarecimento (que havia tido uma primeira edição em 1944) – onde acompanhamos uma “pré-história filosófica do antissemitismo” e no qual a tendência à autodestruição é vista como parte da “racionalidade”. A mentalidade fascista adequa-se, para esses autores, a uma concepção do conhecimento petrificada que não admite a reflexão. Este tipo de pensamento é cúmplice daquilo que eles denominaram “pensamentos por tickets”: como nas listas de votação norte-americanas onde os candidatos aparecem em blocos separados, como na consciência coisificada que reduz o individuo a gavetas pré-estabelecidas, assim também o fascista antissemita pensa por tickets e só sabe optar em bloco. O antissemitismo faz parte do ticket nazista. A experiência dos membros da massa nazista com os judeus não conta mais. Eles têm sua mentalidade moldada como os produtos em série do capitalismo tardio (ou dito monopolista). Assim como nesta visão do conhecimento o particular é coberto pelo conceito como algo que lhe é externo, do mesmo modo na sociedade dominada pelo pensamento por tickets “tudo o que representa a diferença [Unterschied] tem que tremer. As etiquetas são coladas: ou se é amigo, ou inimigo. A falta de consideração pelo sujeito torna as coisas fáceis para a administração. Transferem-se grupos étnicos para outras latitudes, enviam-se indivíduos rotulados de judeus para as câmaras de gás.” (1985: 188) Os adeptos da mentalidade do ticket são inimigos ferozes da diferença. Esse conceito de mentalidade do ticket me parece um excelente complemento ao estudo de Reich, sendo que, de resto, essas duas análises se encontram em muito mais pontos do que se costuma acreditar.

Totaitarismo
Hitler é saudado por membros da Juventude Hitlerista na década de 30. Reprodução da internet.

A essa tarefa de compreensão crítica do fascismo, que autores como Freud e Reich, além de Benjamin, Adorno e uma sólida tradição nascida do parto fascista e pós-fascista (como Foucault e Deleuze), podem nos ajudar a enfrentar, devemos associar o imperativo de uma cultura crítica da memória. É fundamental que educadores e todos demais atores críticos na esfera pública brasileira incorporem finalmente a necessidade de se estabelecer uma robusta cultura crítica da memória. Precisamos falar de nossas história da violência. Precisamos desconstruir a falácia da “democracia racial”, da história “sem sengue” etc. Escravidão, exploração dos trabalhadores, massacres e genocídio indígena e de afrodescendentes, a história de nossas ditaduras: com a incorporação desse passado poderemos enfrentar o fascismo, não com promessas de redenção no futuro, como o faz o próprio capitalismo e muitos que se consideram de esquerda. O mote dessa cultura crítica da memória deve ser extraído da 12a. Tese de Benjamin sobre o conceito da história:

“Precisamos da História, mas não como precisam dela

os mal acostumados ociosos que passeiam no jardim da ciência.”

Nietzsche, Vantagens e desvantagens da história

para a vida

 O sujeito do conhecimento histórico é a própria classe combatente e oprimida. Em Marx, ela aparece como a última classe escravizada, como a classe vingadora que consuma a tarefa de libertação em nome das gerações de derrotados. Essa consciência, reativada brevemente no movimento espartaquista, foi sempre inaceitável para a socialdemocracia. Em três decênios, ela quase conseguiu extinguir o nome de Blanqui, cujo eco abalara o século passado. Preferiu atribuir à classe operária o papel de redentora de gerações futuras. Com isso, ela cortou o nervo das suas melhores forças. A classe operária desaprendeu nessa escola tanto o ódio como o espírito de sacrifício. Porque ambos se alimentam da imagem dos antepassados escravizados, e não do ideal dos descendentes liberados.

 

Referências de imagens

Biblioteca. Reprodução internet. Disponível em http://tudopelaarte.com/category/biblioteca/ . Acesso em 02 de dezembro de 2018.

Hitler é saudado por membros da Juventude Hitlerista na década de 30. Reprodução da internet. Disponível em https://www.todamateria.com.br/principais-caracteristicas-do-totalitarismo/  . Acesso em 02 de dezembro de 2018.

Totem e Tabu. Reprodução L&PM. Disponível em https://www.lpm.com.br/site/default.asp?Template=../livros/layout_produto.asp&CategoriaID=637394&ID=805450 . Acesso em 02 de dezembro de 2018. 

 

Márcio Seligmann-Silva é professor titular de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem, IEL ,Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP.