Virgínia Bicudo: a invisibilidade na psicanálise, racismo e as consequências psíquicas para uma psicanalista negra.* Milene Amaral Pereira

Virgínia Bicudo. Imagem: reprodução.

Resumo: Este trabalho objetiva trazer reflexões sobre o desinvestimento acadêmico com relação às obras de autoria da socióloga e psicanalista negra Virgínia Bicudo dentro do curso de psicologia. A invisibilidade dada a essa autora principalmente na área da psicanálise, que não é uma área exclusiva da psicologia, mas é um campo muito procurado por psicólogos/as que desejam atuar em uma perspectiva clínica, se dá de forma naturalizada e evidente. Assim, estudar autoras/es negras/os cai no campo do desnecessário e não pensado. Dessa forma, veremos uma autora que pensou e viveu a psicanálise, mas tem suas produções não referenciadas e desvalorizadas dentro das bibliografias psicanalíticas acadêmicas.
Palavras-Chaves: Virgínia Bicudo; psicanalista; negra; invisibilidade; acadêmicas.

A psicanálise é um método criado pelo médico neurologista austríaco Sigmund Freud (1856-1939), que tem como objetivo a investigação e o tratamento das doenças mentais. Tem por base a análise dos conteúdos inconscientes de palavras, ações e produções imaginárias de um indivíduo, bem como conflitos sexuais inconscientes originados durante a infância.
A teoria psicanalítica defende que os impulsos que são recalcados pela consciência permanecem no subconsciente e afetam o sujeito. É importante ter em conta que o inconsciente não é observável pelo paciente: compete ao psicanalista tornar acessíveis esses conflitos inconscientes através da interpretação dos sonhos, dos atos falhos, da associação livre, da transferência, etc.
Ao passar dos anos, surgiram muitos profissionais inspirados por Freud pensando a prática psicanalítica com os mais diversos olhares, das mais variadas perspectivas e em inúmeros contextos. É importante ter em vista que a psicanálise, inicialmente, tinha um público específico, tanto analisados quanto analisandos, que eram pessoas da burguesia, brancas, pertencentes aos países europeus.

Desse modo, a aproximação de pessoas sem os marcadores sociais dominantes (burguesia, branco, europeu), possibilitou um olhar mais voltado às especificidades, ou seja, foi se mexendo no caráter universal posto sobre a psicanálise. Assim, a psicanálise expandiu-se para além dos muros burgueses. A escolha pelas produções de Freud é mencionada por Virgínia Bicudo em uma entrevista:

Eu queria me aliviar de sofrer. Imaginava que a causa do meu sofrimento fosse problemas sociais, culturais. Então me matriculei na Escola de Sociologia e Política. Isso foi em 1935. Eu tinha conflitos muito grandes comigo mesma, mas achava que a causa era social. Desde criança eu sentia preconceito de cor. Queria o curso de sociologia porque se o problema era esse preconceito eu deveria estudar sociologia para me proteger do preconceito, que é formado no nível sociocultural. No segundo ano do curso, com a professora Noemy Silveira, tive contato com a psicologia social. Comecei a ler e ali encontrei a psicologia do inconsciente de Sigmund Freud. Aí disse: ‘É isso que estou procurando’ (BICUDO, 1994 apud BRAGA, 2016).

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A psicanálise começou a despertar o interesse de pessoas de outras classes sociais e em outros contextos de vida. A aproximação desses profissionais se dá na emergência de tratar de assuntos distantes da realidade burguesa. Os assuntos emergentes diziam muito sobre a forma de ser e de estar dos sujeitos no mundo. Um dos assuntos que transcende a experiência vivida é o racismo.
De acordo com a Cartilha CFP Relações Raciais: Referências Técnicas para atuação de psicólogas/os¹ (2017), o racismo tem “sido uma ideologia que opera poderosamente na sociedade como motor de desigualdades que engendram as precárias condições de existência do povo negro”, configurando-se como uma grave violência estrutural e institucional presente na sociedade.
Diante disso, uma autora será destacada ao decorrer do trabalho pelas suas produções sobre o racismo e contribuições para a psicanálise. A autora que mencionarei neste trabalho é desmerecidamente anulada do conteúdo acadêmico e, quando falada, não recebe o mesmo cuidado e admiração dados aos autores/as “tradicionais”, brancos, burgueses, europeus.

Portanto, se faz necessária a problematização da invisibilidade da autora Virgínia Bicudo na academia. Essa autora que produziu sobre a psicanálise no contexto brasileiro e o sofrimento psíquico causado pelo racismo aos sujeitos negros, mas que tem seus trabalhos desvalorizados no meio acadêmico.

MULHER, NEGRA E PIONEIRA NA PSICANÁLISE NO BRASIL
“Quando era estudante, nunca soube da Virgínia. Não há essa informação nas escolas de psicanálise, nem de psicologia, nem de psicologia social. Se você for a uma livraria, não vai encontrar os textos dela.” (NOGUEIRA, s.d. apud HUFFPOST, 2017).

Virgínia Leone Bicudo (1910-2003), negra, paulistana, filha de uma imigrante italiana branca com um homem negro brasileiro, neta de uma escrava alforriada, foi a primeira mulher a fazer análise na América Latina.
Primeira pessoa a escrever uma tese sobre relações raciais no Brasil, inaugurando, na academia, o debate sobre o racismo. Foi também a primeira psicanalista não médica no país. Tantas credenciais desta psicanalista e socióloga e, no entanto, seu nome, seu protagonismo e sua história se tornaram invisíveis a muitos brasileiros. É possível atribuir tamanho esquecimento ao racismo que estrutura a sociedade.
Podemos dizer, também, que Bicudo é resultado da política de branqueamento da população brasileira conduzida energicamente pelo Estado, na qual imigrantes eram seduzidos à vir morar no Brasil com a promessa de uma vida melhor, mas o real motivo dessas promessas era a diminuição da população negra acumulada durante o período escravista. Consequentemente, se estabeleceu uma nova modalidade de racismo, “o racismo à brasileira”.
A mestiçagem objetivando o branqueamento até hoje produz impactos e confirma a hierarquização e a valorização negativa da identidade negra. Além disso, a falta de nome e de admissão do racismo no Brasil sequestra a condição de reflexão e resistência contra as palavras e os gestos violentos. Sobra para a população negra marcas da crueldade em seus corpos. Marcas que rememoram várias gerações de nosso passado escravocrata.

Logo, fica gritante os motivos pelos quais Virgínia caiu no esquecimento e se tornou invisível aos olhos da psicanálise. É evidente que se trata de uma pessoa passível de esquecimento, em se tratando de uma mulher, negra, oriunda de classe baixa. Desse modo, para que Virginia fosse vista outras pessoas teriam sido invisibilizadas, ou seja, a invisibilidade de uns à custa da visibilidade de outros. É óbvio que todos esses movimentos são regidos pela lógica de dominação e pelas relações de saber/poder.
Michel Foucault entende o racismo como sendo uma dimensão do poder soberano sobre a vida e a morte. Segundo Foucault, operacionaliza-se por meio do biopoder, conceito que descreve uma tecnologia de poder, uma biopolítica que permite a eliminação dos segmentos indesejáveis.
Assim, justifica-se o apagamento que as produções de Virgínia têm na psicanálise e o desaparecimento de abordagens racializadas nos estudos psicanalíticos. As diferenças de cor, tão abordadas por escritoras/es negras/os como elemento essencial dos modos de ser e estar dentro de uma sociedade, são ligeiramente esquecidos.

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Virginia trabalhou o quesito cor mais no início de sua carreira profissional e através de uma retrospectiva ao final de sua vida. As vivências tidas durante a infância relacionadas ao preconceito de cor, a percepção e o sofrimento advindos da discriminação racial a levaram para esse caminho profissional e após a vir tornar-se pesquisadora sobre relações raciais. A história pessoal e profissional associa-se com a temática abordada já no começo de sua produção teórica. Assim, relata Virgínia em uma entrevista a Anna Verônica Mautner:
Eu me interessei muito cedo por esse lado social. Não foi por acaso que procurei psicanálise e sociologia. Veja bem o que fiz: eu fui buscar defesas científicas para o íntimo, o psíquico, para conciliar a pessoa de dentro com a de fora. Fui procurar na sociologia a explicação para questões de status social. E na psicanálise, proteção para a expectativa de rejeição. Essa é a história. (BICUDO, 1998 apud BRAGA, 2016).

À época, o Brasil se ancorava no mito da democracia racial, de acordo com todo o cidadão brasileiro era múltiplo e majoritariamente mestiço, onde todas as raças conviveriam em harmonia, sem a prevalência de uma sobre as outras. A discussão sobre racismo, desde outra perspectiva, consistia em uma abordagem nova e desafiadora.

Então, Virginia foi inovadora em sua trajetória profissional ao constatar através de pesquisas o preconceito de cor que na infância ela experienciou.

O RACISMO E A PSICANÁLISE
“No meu modo de ver, nunca houve interesse na divulgação do trabalho dela. Eu diria que poucos negros conhecem o que a Virgínia fez” (NOGUEIRA, s.d. apud HUFFPOST, 2017 ).

A branquitude, como sistema de poder fundado no contrato racial, do qual todos os brancos são beneficiários, embora nem todos sejam signatários, pode ser descrita no Brasil por formulações complexas ou pelas evidências empíricas, como no fato de que há absoluta prevalência da brancura em todas as instâncias de poder da sociedade: nos meios de comunicação, nas diretorias, gerências e chefias das empresas, nos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário, nas hierarquias eclesiásticas, no corpo docente das universidades públicas ou privadas, etc (CARNEIRO, 2007).
A psicanálise era exercida majoritariamente por homens, brancos, médicos. Esse campo era um local totalmente impensado para mulheres, ainda mais mulheres negras. E foi nas práticas de suas atividades em psicanálise que Virgínia teve de volta o sofrimento causado pela discriminação:
[…] Eu estava sentada e todos os médicos de pé, todos gritando: “Absurdo! Psicanalistas não médicos!” Foi horrível! Olha que eu quase me suicidei por isso. Você ouvir outras pessoas dizendo: você é charlatã! Ah! Você não fica de pé! Você vai pra casa e quer morrer (BICUDO, s.d. entrevista ao Projeto Memória da SBPSP apud HUFFPOST, 2017).

Virginia pode ter entendido esse episódio como somente preconceito de gênero e indignação de uma classe profissional que queria monopolizar um campo de saber/poder, mas é inevitável pensar que eles poderiam ter tido uma reação distinta se fosse uma mulher branca. É possível relacionar tamanha agressividade na manifestação dos médicos com o fato de Virginia ser uma mulher, negra, além de não ter formação acadêmica em medicina.
Segundo Lélia Gonzalez (1983), o lugar em que nos situamos determina nossa interpretação sobre o duplo fenômeno do racismo e do sexismo. Para nós, o racismo se constitui como a sintomática que caracteriza a neurose cultural brasileira. Nessa perspectiva, vemos que a articulação do racismo com o sexismo produz efeitos violentos sobre a mulher negra em particular.

Nesse sentido, Virginia se situava em um lugar rodeado de pessoas brancas, circulava em espaços ocupados por pessoas brancas, praticava uma profissão dominada por pessoas brancas, em um contexto de “democracia racial”. A branquitude já dada da psicanálise pode ter impedido Virgínia de ver as opressões de gênero operando e o racismo cristalizado imerso nessa profissão. Possivelmente, somente Virginia tenha se afetado com a manifestação dos médicos, enquanto os demais achavam o ato “natural” e justo.
Conforme Munanga (2003), o racismo à brasileira é um crime perfeito. As crenças da democracia racial e da mestiçagem encobrem e mascaram a brutalidade do cotidiano. As representações negativas estão enraizadas no imaginário social, e os golpes sofridos no dia a dia por negros e não brancos frequentemente caem na condição da “não existência”, pelo seu desmentido no discurso coletivo.

DA FAMA AO ESQUECIMENTO
Virginia ascendeu muito dentro da psicanálise brasileira. Integrando a equipe da Seção de Higiene Mental Escolar coordenada por Durval Marcondes, começa a lecionar Higiene Mental e Psicanálise na Escola Livre de Sociologia e Política difundindo os saberes “psi” através da instituição. Participa de um estudo promovido pela UnescoAnhembi/SP do qual é produzido um livro publicado em 1955. Em 1959, esse mesmo livro teve sua segunda edição, da qual os trabalhos de Virgínia, de Oracy Nogueira e de Aniela Ginsberg foram suprimidos.
À vista disso, é inegável que ocupar esse espaço dentro da psicanálise não tenha sido tarefa fácil para Virgínia Bicudo. Diante de tantos esforços e contribuições à psicanálise, que lhe rendeu fama, sucesso, dinheiro, mas também solidão, embranquecimento, invisibilidade e um monte de produções esquecidas. A esse apagamento da existência de uma psicanalista e socióloga incrível e de suas obras podemos denominar epistemicídio.

Epistemicídio é um conceito que se presta como contribuição ao entendimento da perversidade do racismo. Assim como afirma Sueli Carneiro:
Alia-se nesse processo de banimento social a exclusão das oportunidades educacionais, o principal ativo para a mobilidade social no país. Nessa dinâmica, o aparelho educacional tem se constituído, de forma quase absoluta, para os racialmente inferiorizados, como fonte de múltiplos processos de aniquilamento da capacidade cognitiva e da confiança intelectual. É fenômeno que ocorre pelo rebaixamento da auto-estima que o racismo e a discriminação provocam no cotidiano escolar; pela negação aos negros da condição de sujeitos de conhecimento, por meio da desvalorização, negação ou ocultamento das contribuições do Continente Africano e da diáspora africana ao patrimônio cultural da humanidade; pela imposição do embranquecimento cultural e pela produção do fracasso e evasão escolar. A esses processos denominamos epistemicídio (CARNEIRO, 2005).

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Virgínia Bicudo foi, sem dúvida, uma grande mulher e não se intimidou de ocupar espaços brancos para alcançar o seu objetivo. Com certeza, não foi tarefa fácil ter que conviver com os preconceitos, a discriminação e o racismo que a sociedade impõe às pessoas negras, mesmo que de forma indireta.
Em contrapartida, deve ter sido muito encorajador mostrar para as pessoas brancas que as pessoas negras podem chegar onde elas quiserem e produzir conhecimento “dito científico” tão relevante quanto o produzido por pessoas brancas. No entanto, ter sua imagem distanciada de sua identidade nos jornais, em comparação com as imagens associadas às suas irmãs negras identificadas como perigosas, deve ter sido devastador para não dizer enojante.
Dessa forma, Virgínia merece muito mais do que tem sido feito. Ela não é merecedora dessa produção de esquecimento, tornando sua obra uma produção daquilo que fica como se não tivesse existido. A psicanálise brasileira lhe deve gratidão.

 

Notas:

¹  Conselho Federal de Psicologia, Relações Raciais: Referências Técnicas para atuação de psicólogas/os. Brasília: CFP, 2017. 147 p. ISBN: 9788589208673 1. Psicólogos, 2. Políticas Públicas, 3. Relações Raciais, 4. Título. Disponível em: <https://site.cfp.org.br/wpcontent/uploads/2017/09/relacoes_raciais_baixa.pdf>.

REFERÊNCIAS

BRAGA, Ana Paula Musatti (2016) Pelas trilhas de Virgínia Bicudo: psicanálise e relações raciais em São Paulo. Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -2, p. 1, 2016. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2016/12/06/n2-01/>CARNEIRO, Sueli. A Construção do Outro como Não-Ser como fundamento do Ser. Feusp, 2005. (Tese de doutorado)
_____. Epistemicídio: Sobre negros e o epistemicídio no Brasil (2007). Disponível em: <https://www.geledes.org.br/programa-espelho-lazaro-ramos-entrevista-sueli-carneiro/> acesso em: 07/07/2018
CFP, Conselho Federal de Psicologia, Relações Raciais: Referências Técnicas para atuação de psicólogas/os. Brasília: CFP, 2017. 147 p. ISBN: 9788589208673 1. Psicólogos, 2. Políticas Públicas, 3. Relações Raciais, 4. Título.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: SILVA, Luis Augusto. ANPOCS, 1983. (ciências sociais hoje, nº 2).
FOUCAULT, Michael. Vigiar e punir: História da violência nas prisões. São Paulo: Ática, 2002
KON, Noemi; SILVA, Maria & ABUD, Cristiane. O negro e o racismo no Brasil: questões para a psicanálise – i. ed. – São Paulo : Perspectiva, 2017.
MUNANGA, Kabengele. “Diversidade, etnicidade, identidade e cidadania”. In: Cadernos Anped -Palestra proferida no 1º Seminário de Formação Teórico Metodológica. São Paulo, 2003. Disponível em: www.educacaonacional.com.br/include/dowload.php?arquivo=/home/educacaonacional .com.br/arquivos/biblioteca/, acesso em: 06/07/2018.
________.Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
VELOSO, Amanda. Quem foi Virgínia Bicudo: Mulher, negra e pioneira na psicanálise, mas invisível no Brasil. Disponível em: <https://www.huffpostbrasil.com/2017/04/16/quem-foi-virginia-bicudo-mulher-negra-epioneira-na-psicanalis_a_22041991/> , acesso em: 06/07/2018

*Esta escrita surgiu como consequência da disciplina Interpretações do Brasil, oferecida pelo professor Amadeu Weinmann do curso de Pscologia da UFRGS.

Milene Amaral Pereira é Graduanda do Curso de Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e-mail: milene.amaralpereira@gmail.com