O psicanalista precisa entrar na cena. Luciano Elia.

O meu despertar, em todos os sentidos do termo, numa dessas manhãs em que acordo aterrorizado quando o pensamento volta do mundo onírico à realidade política brasileira, foi com a escuta do “isto não é um poema” de Arnaldo Antunes: Uma porrada no peito, na cabeça pensante, no corpo político e cidadão, na alma psicanalítica (conjunto corpo-ato político), que desperta também da desolação e convoca o corpo ao ato.

O artista extraiu das entranhas de sua arte um ato político de força descomunal,  operou a mais encantadora e ao mesmo tempo álgida sublimação da força pulsional em beleza que corta como a faca de Belchior, que cortava a carne de quem pensava “que o desespero era moda em 76”.

O desespero tampouco é moda em 2018, é a antevisão de um desastre que se anuncia: a ascensão do nazismo no Brasil, e pela via do voto, como na Alemanha de Hitler – muito embora este não tenha chegado ao poder por vitória eleitoral direta no pleito de 1932, mas por manobras que se seguiram, associadas à morte do presidente eleito em 1934.

Diz-se, enganosa e tendenciosamente, com o intuito ideológico de produzir confusão, que estaríamos diante de duas posições extremas e antagônicas, polarizadas, como se a opção, a divisão, fosse entre esquerda e direita. Mas isso é falso. Estamos diante de uma escolha muito mais terrível: entre a barbárie e a civilização.

De um lado, o candidato Jair Bolsonaro, um tipo inculto, truculento, sem qualquer projeto político consistente para o Brasil, com claras tendências fascistas e que ao mesmo tempo representa o poder das igrejas evangélicas, que incita a população ao ódio, à agressividade, ao extermínio dos indesejáveis, que odeia pobres, negros, mulheres, homossexuais, que enaltece a tortura e idolatra em pleno Congresso Nacional um torturador e assassino político. Como entender que tantas pessoas tenham passado a apoiá-lo, dar-lhe seu voto nas urnas, sem que qualquer argumento racional tenha qualquer efeito sobre esta insana decisão,  louca e cega, inflexível, imune à razão? A que se deve o resultado estarrecedor das urnas do primeiro turno a favor do candidato Jair Bolsonaro?

Poderíamos supor que o seu discurso de combate (por extermínio) à criminalidade e defesa da segurança do cidadão seria uma das razões de seu sucesso “eleitoral” obtido até aqui. Ainda que este fosse um mote, por assim dizer, verdadeiro deste candidato, esta postura já revelaria seu caráter absurdo e desastroso, sobretudo em um Presidente da República: combater crime com crime, violência urbana com matança, quando se sabe, aliás sobeja e demasiadamente, que a violência urbana tem multideterminações sócio-econômicas muito complexas e é indissociável da aberrante desigualdade social brasileira, uma das mais acentuadas do mundo, significativamente reduzida nos governos do PT, com correlata redução da criminalidade, que voltou a crescer assustadoramente após o Golpe de 2016, que destituiu – aliás, criminosamente – a presidenta Dilma, eleita em 2014 – o que a elite e outros setores que neste momento sustentam o candidato Bolsonaro não toleraram.

Mas o verdadeiro mote do candidato nazista não é a segurança pública, seu painel de ferro, mas um projeto de poder de extrema-direita, anti-democrático, autoritário, ditatorial, enaltecedor da tortura, privador de liberdade, contrário aos direitos humanos, sociais e trabalhistas, racista, misógino, homofóbico, e eu diria mesmo antropofóbico.

Há um claro projeto de poder por trás dele, da Igreja Universal do Reino de Deus e se chama “Plano de Poder”, publicado em livro por Edir Macedo. A este plano associaram-se outros, o Plano Anti-popular que forjou o mito do PT como partido “ladrão e corrupto”, e portanto transformou-se em Plano Anti-PT, anti-Lula, mito que não resiste à crítica mais pueril, e nele se insere a Lava-Jato, a perseguição empreendida pelo “Juiz” Sérgio Moro contra Lula, que afronta desavergonhadamente qualquer princípio sério da Justiça, a Rede Globo que lava diariamente o cérebro da população brasileira com ideias anti-petistas mas que agora se vê ameaçada pelo Plano de Poder que nada quer com ela mas sim com sua própria Rede Evangélica de TV, a Record.

Por falar em atos desavergonhados, o que dizer das declarações públicas do candidato fascista que rompem todas as barreiras o pudor e da censura no uso da linguagem? Que efeito tem sobre o que cada brasileiro tem, em seu íntimo, inconscientemente ou não, mas insidiosamente inoculado por séculos de uma História de escravidão, segregação e elitismo da mais baixa qualidade, de fascista, preconceituoso, racista, machista, misógino, homofóbico e pobrefóbico, se o candidato à presidência declara sua antropofobia generalizada sem qualquer reserva ou dique moral?

Como psicanalista, temos que situar neste efeito uma operação complexa envolvendo o que a Psicanálise concebe como o Supereu: por um lado essa atitude falada e agida do candidato fascista levanta, destampa, libera em cada brasileiro a manifestação do que há de pior em si, aniquilando o efeito da vertente do supereu que é afeita à cultura, à civilização, à vida social, que sustenta a “philia” que conduz do eu individual ao sujeito coletivo, e ao mesmo tempo instaura em seu lugar uma outra vertente do Supereu, a feroz, o imperativo do gozo e faz agir este supereu, faz dele um imperativo agido de toda e qualquer forma de gozo anti-social, sociofóbico e não sociofílico. Não se trata assim de um imperativo experimentado no espaço subjetivo, como uma imposição ao pensamento obsessivo-compulsivo, por exemplo, mas uma imposição à ação, mais ainda, uma imposição que é, ela própria, agida. O nome sócio-antropológico disso é barbárie, mas é possível à psicanálise extrair as suas coordenadas subjetivas e inconscientes.

Acordemos do sono que nos retarda o entendimento: O assassinato de Marielle Franco, ocorrido no Rio de Janeiro no dia 14 de março deste ano, não é um ato desarticulado deste projeto de poder. A mensagem é clara: que se cuidem as marielles, as mulheres, as negras e os negros, os pobres, os favelados, os que defendem os direitos desse povo – vejam o que acontece com eles! Talvez outros atos se inscrevam nesta cadeia que remonta a 2013, se pudermos lê-los, sempre só-depois – não tem outro jeito. Mas a leitura do que ocorreu antes, feita só-depois, nos deixa advertidos quanto ao presente, ao que se faz agora.

De outro lado temos Fernando Haddad, do PT, que, na dualidade que se apresenta a nós, representa a democracia, a preservação do direito de pensar, o direito à pluralidade, à diversidade, enfim, à civilização e ao Estado democraticamente organizado.

Se este candidato também representa a defesa dos direitos sociais, das políticas públicas de caráter social, o acesso da população em geral, sobretudo a mais pobre, à saúde, à educação e ao trabalho, isso, neste momento, deve ser colocado em segundo plano, importa menos! Poderíamos fazer aqui a defesa da Programa Político do candidato Fernando Haddad, mas não é este o nosso propósito, precipuamente porque nossa pergunta é: o que pode o psicanalista fazer diante deste cenário tenebroso que anuncia um futuro imediato catastrófico para o Brasil, nos planos moral, cultural, político, social, mas também – não nos iludamos – econômico; que um projeto de poder como este não pode dar certo para sociedade alguma, nem mesmo para o capital!

O candidato oposto ao nazista poderia ser aquele que defende o liberalismo econômico, que necessariamente mantém a desigualdade social (não existe liberalismo a que se possa associar o epíteto de “social”, pois que o liberalismo produz,  por estrutura, desigualdade e portanto nega qualquer “liberdade social”), e ainda assim poderia estar do lado da democracia, e a opção então seria entre democracia e terror de Estado: não nos caberia outra opção senão votar no candidato liberal.

Portanto, estas eleições não nos colocam diante de opções de diversidade ideológica de mesmo patamar, “polarizadas”, como se pretende dizer, mas entre civilização e barbárie. E a maior parte do eleitorado brasileiro, pelas mais variadas razões, que vão da ignorância, a lavagem cerebral e o descontentamento difuso e inespecífico com os políticos cujos partidos já ocuparam o poder, produzido pela campanha que usou a endêmica e secular corrupção do estado brasileiro para aniquilar o Partido dos Trabalhadores, escolheu, no primeiro turno, a barbárie.

Mas será que o jogo, que ainda não terminou e só termina dia 28, já está definido? Seria ilusório pensar que ainda não estamos derrotados, que ainda estão rolando os dados? A contingência própria à lógica científica já terá dado lugar à necessidade própria ao imaginário? O real, como impossível, já se terá ele se escondido por trás das “evidências”, sempre aparentes?

Talvez a primeira coisa a fazer seja ter a clareza de que há um real em jogo. E que ele pode decidi-lo. Há, nas manobras políticas, uma estratégia que consiste em tomar as aparências com que a realidade nos ilude como referência, fazendo-nos cair na cilada da objetividade, sub-racional, “realista” por ser na verdade positivista, que só considera como existente o que se encontra na realidade objetiva e positiva, como algo palpável às mãos e visível aos olhos. Esta posição ignora deliberadamente que o se pode ver e apalpar é estritamente dependente do  âmbito do sujeito, e a isso se dá o nome de dese jo em Psicanálise.

O que se deseja? O que efetivamente se pode querer para o Brasil? Sabemos que os pastores e chefes de hordas ferozes querem, e que seus súditos, sub-ditos, servos, passam a querer como escravos a seu serviço. Mas o que mais se pode querer? O que podemos fazer pelo que queremos?

Temos sim que praticar todas as ações concretas (não objetivas, porém concretas) de modo incessante, ininterrupta, obstinada e até compulsivo, tais como dialogar com as pessoas, como Safatle em São Paulo, Leonardo Boff e a equipe do CDDH nas comunidades de Petrópolis, e tantos militantes do PT, PCdoB, PSOL, PCB, PCO, PDT e outros em todas as cidades, em tantas comunidades e nas ruas, escrever notas e manifestos nacionais e internacionais dos mais variados coletivos setoriais, profissionais, intelectuais, institucionais: militância direta e intensa.

Mas temos também que fazer acompanhar essas ações todas de uma posição discursiva, como tal potente e consequente, no laço social amplo. Há um nível transcendente às ações, que as rege, e que pode revelar algo que não é tão óbvio à primeira vista: nada está definido, tudo não está dominado, o desastre não é inevitável, o monstro não é invencível. Tudo não é ou está como se apresenta por nenhuma razão necessária, prévia, predestinada nas estrelas ou nos Céus, mas por absoluta contingência, e portanto as coisas podem ser sempre infinitamente diversas do que são.

O que move as coisas nesta engrenagem toda é o tal do desejo, indestrutível, segundo Freud, mas que pode ter sua indestrutibilidade reduzida na análise, segundo Lacan. Há muitos desejos operando a favor do desenfreio do gozo da massa sedenta de sangue, mas o autoritarismo é um outro modo do gozo que o líder fascista exercerá contra essa mesma massa manipulada e desenfreada por ele e que o apóia,  subjugando os tolos iludidos que se supõem liberados. Estarão sempre liberados para agir o supereu do Senhor, como cães que rosnam para quem se aproxima do seu dono, mas sempre às custas do que seria um gozo próprio deles, como sujeitos, que este lhe é priva do de saída. A servidão total é a regra, e só o Pastor Maior deterá os meios de gozo.

Este, o Pastor Maior, o ditador, ele também se inscreve na servidão, mas aí já entramos em um outro domínio, o de sua perversão, que sustenta um Outro – que não é ele próprio – que ele acredita todo, inteiro, sem falhas nem fissuras, ao qual nada falta, espécie de Deus mas não o que a comunidade judaico-cristã conhece, que parece que não mas tem lá suas falhas e as transmite aos homens. Como este Deus do líder fascista não existe, o tal Projeto de Poder do bispinho esperto não dará certo, tudo vai ruir e todos vão se dar muito mal. Mas isso pode demorar muito. Não podemos esperar a História se entender com a Estrutura e a todos cobrar o preju&ia cute;zo, temos que, nós, entrarmos na História com papel de protagonistas e reescrever este roteiro, mudar o plano de poder.

Para isso, temos que fazer operar um certo desejo (como se exprimia Jean Oury). Um olhar apressado, incauto, julgaria talvez que o desejo mais apropriado e eficaz  para este momento, para o ato que precisamos fazer, seria um desejo “político”, capaz de articular as injunções do Poder e do Saber no difícil jogo de forças deste cenário macabro. Mas o Poder, em um sábio dizer de Lacan, “não tem outro fim senão fazer o Bem, e por isso o poder não tem fim”. Teríamos que operar um outro modo do desejo, capaz de dar outro rumo a este navio.

Talvez em nenhum outro momento histórico-político brasileiro o que Lacan cunhou como desejo do psicanalista seja tão necessário, tão decisivo quanto agora. Que ele esteja à altura do desejo do artista, de Arnaldo Antunes, que transmutou palavras em petardos reais.

LUCIANO ELIA,

psicanalista.