Incêndios, por Edson Luiz André de Sousa

 

 

Para quem já leu o clássico livro de Joseph Conrad “O coração das trevas” deve ter bem presente na memória o grito desesperado do personagem Kurtz, no final da narrativa:

“Gritou, então, num sussurro, para alguma imagem, alguma visão – gritou duas vezes, um grito que não era mais do que um sopro: O HORROR! O HORROR!”

Vendo ontem à noite parte de nossa história, de nosso futuro, de nossa esperança queimar, lembrei de Conrad.  Precisamos reagir a este coração das trevas que vivemos diante de um governo que cada vez mais vira as costas para nossa memória, para nossa cultura, para a educação, para a saúde em nosso país.

O fogo de ontem foi acionado pelo descaso, pela negligência. Patético ver os bombeiros tentando apagar um fogo com hidrantes sem água, sem equipamentos suficientes. Mas o incêndio continua, ele continua vivo em todos os decretos que nos tem tirado oxigênio, da educação, da saúde, de investimentos na cultura.

Temos que reagir a este novo FARENHEIT 451 com nossas palavras, com nossa indignação. Talvez Leo Aversa tenha razão ao escrever sobre o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro:

“O Museu Nacional não deve ser reconstruído. Deixem como está, façam apenas passarelas para que as pessoas circulem pelos escombros e pelas cinzas. Será o Museu do Descaso, onde as crianças aprenderão o que acontece quando não se dá nenhuma importância para a ciência e para a cultura. No Museu do Descaso veremos pó de dinossauros, de múmias, dos vinte milhões de itens que estavam lá. O que resistiu a milhares, milhões de anos, mas desapareceu em algumas horas por negligência e omissão. Se a gente não consegue acertar, que os próximos aprendam com nossos erros.”.

Talvez não seja este o melhor caminho, mas precisamos deixar vivo algumas cinzas, talvez um memorial do lado do prédio contando esta história de descaso, para não esquecermos disto e para que outros museus também não queimem!!!

O Museu Nacional do Rio de Janeiro é o museu mais antigo do Brasil e foi fundado por Dom João VI no dia 6 de agosto de 1818. Este ano completou 200 anos de história. O museu tinha uma coleção incalculável de preciosidades. Neste memorial que mencionei acima teremos que listar item por item para que as gerações futuras tenham consciência do que se perdeu para sempre. Cito alguns poucos tesouros para que tenhamos ideia da terra arrasada:

 

  • Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil, descoberto em 1974, em Minas Gerais, e que teria em torno de 11.300 anos.
  • O esqueleto Maxakalisaurus Topai, o primeiro dinossauro de grande porte a ser montado no Brasil, encontrado em Minas Gerais.
  • O Caixão de Sha Amun en su, presente que Dom Pedro II recebeu em 1876 em sua segunda visita ao Egito. Com mais de 700 peças a coleção de arqueologia egípcia é considerada a maior da América Latina e mais antiga do continente com múmias e sarcófagos.
  • O Trono de Daomé, trono do rei africano Adandozan (1718-1818) doado pelos embaixadores do rei ao príncipe regente Dom João VI em 1811.
  • Coleção de arqueologia clássica, composta por 750 peças das civilizações grega, romana e etrusca.
  • Coleção de paleontologia, com 56 mil exemplares de fosseis de plantas e animais, considerada uma das mais importantes da América Latina.

 

A lista segue infinita e cada item acrescentado é uma parte de nossa memória, de nossa história, de nosso corpo, que perdemos. A dor é imensa, mas não podemos perder nossa indignação com tudo isto e cuidar para que estas cinzas nos ajudem a reagir, para que isto não mais aconteça.

Não vamos deixar o fogo queimar nossas palavras!!