NOTAS SOBRE A EXPERIÊNCIA A CASA. Agulha nº 19. Camila Leichter

Com esse último texto chegamos ao final da longa série de textos do trabalho realizado pelo Laboratório de Pesquisa Psicanálise, Arte e Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (LAPPAP/UFRGS) em 2017. Ao longo de vinte e seis semanas, Psicanalistas pela Democracia publicou no site/página os textos inéditos produzidos e apresentados no encontro anual do LAPPAP e intitulado Agulhas para desativar bombas: utopias artísticas e políticas da imagem. Psicanalistas pela Democracia agradece a todos os autores que cederam seus textos inéditos e instigantes, e muito especialmente ao nosso querido colaborador e parceiro Edson Luiz André de Sousa, coordenador do LAPPAP e à Lisiane Leffa (organizadora do PPD e membro do LAPPAP) por essa parceria pródiga e muito importante para nós. Estaremos sempre abertos às iniciativas e parcerias com o LAPPAP e interessados na publicação e nos resultados de suas importantes pesquisas no campo da psicanálise, da estética, da linguagem e da ação políticas.
Com nossas saudações e agradecimentos,

                                                                                                                                                                                       Psicanalistas pela Democracia

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Notas sobre a experiência a casa. Agulha nº 19.

Camila Leichter

 

Fotogramas A CASA

BASE-film, 13min, 2017, Moinho

 

Notas sobre a experiência A CASA

Entendo que, a partir das vivências, criamos as representações que constituem a experiência. Interessa a discussão sobre experiência no sentido da potência, como forma de fazer e de não fazer.

No caso da BASE-film, formação que participo juntamente com Ali Khodr e Mauro Bomfim Espíndola, compreendemos que o filme trabalha em nós na vivência e no convívio. Essa noção parte de uma constatação pela experiência e projeta a vivência para um outro tempo. Enquanto a experiência está presente, a vivência está em latência.

É um aberto e é também uma discussão sobre a forma de vida. Escolhemos romper com o processo elétrico da vida nas cidades para habitar um lugar onde podemos aprofundar a dimensão desta experiência.

Começamos nosso processo de trabalho e de vida pelo gesto do corte. Corte na vida de um cotidiano urbano para o rural, para viver em um lugar de isolamento. Corte com uma herança, com uma forma de relação com o mundo.

A ideia de cesura que surge da ação de cortar cabelos que por sua vez surgiu por necessidade de ritualizar um começo desencadeou o processo de produção da primeira experiência audiovisual do Moinho, esse lugar às margens de um rio que transborda e onde resiste, junto ao remanescente de mata nativa, uma casa e um moinho em ruínas.

A ação filmada, de duração de 3:51, ficou em latência como se o corte nos cabelos, que não funcionou na imagem, realizou um corte equivalente no lugar, interrompendo a sua continuidade no tempo anterior a nossa habitação.

O corte é uma transformação, algo novo emerge. Algo que vai além da pessoalidade emerge conosco e também com o lugar. Podemos pensar o corte como uma origem a partir da qual é possível perceber uma transformação.

Estaríamos habitando ou sendo habitados pelo lugar? Que experiência seria essa que estamos tentando abarcar?

O primeiro movimento, pensado para possibilitar a chegada até o Moinho, opera uma aproximação pelo escuro. O foco de luz de uma lanterna forma imagens de um lento começo de processo, um caminho sinuoso, de interrupções e imprecisões, mas também de origem de algo.

Nessa opacidade, uma certa dimensão consciente do processo vai se manifestando, mas permanecem operações menos visíveis nas imagens que nos conduzem. Não sabemos aonde estamos indo, como no início da descida à noite pela estrada de terra. Estamos no escuro e para caminhar, precisamos focar no pedaço de chão precariamente iluminado.

Descida Moinho

Existe esse primeiro momento que vem de antes. O corte não é produzido aqui. É um corte residual com uma temporalidade anterior. O acúmulo de cabelos é uma materialidade dessa temporalidade. Surge uma aparência de duplo que não é um duplo, mas que representa algo que fica e algo que vai, algo dentro e algo fora. Possibilita perceber uma transformação e o limiar onde estamos posicionados. O duplo está ali para isso: mostrar que algo mudou de forma.

Através do corte que nos permitiu imaginar o duplo, chegamos na ruína e a imaginarmos como A CASA. Uma coisa nos permitiu imaginar a outra. É um pensamento que surge dentro.

A cesura trabalha uma abordagem patológica que remete ao que nos acontece ao ponto de uma transformação, fala de uma ruptura com uma continuidade (herança), e trata do momento em que um gesto toma posição ao interromper a ação e nos interrogar.

É como se a realização da imagem que não consegue escapar da condição da ação, produzisse um olhar de fora para dentro e de dentro para fora, um duplo expresso por meio de um procedimento de montagem que revela algo não pensado e articula ambas temporalidades para dar conta de um real, uma dupla temporalidade que reaparece nA CASA que também é a sua ruína.

Estamos no limiar, na suspensão que instaura um tempo de agora, um Jetztzeit, um começo sem origem.

A Casa.

 

A Ruína da Casa.

Em termos de produção de imaginário, considero tudo isso um aspecto da radicalidade da experiência.

Fomos levados à ruína da casa que habita o mesmo corpo que a casa, a temporalidade que habita qualquer corpo. Essa é a noção de temporalidade da experiência que estamos elaborando.

No filme, as imagens nos levam à percepção de que produzimos essencialmente a ideia de uma ancestralidade interna construída através das imagens que a dimensão de lugar e de experiência nos permitiu pensar.

Dimensão da perda, da presença da morte e de como a deterioração do corpo se expressa. A morte como uma natureza, evidente na ruína, a morte de tudo, dessa desorganização do corpo.

O que é ser habitado por uma ruína além de uma manifestação da morte?

Ao situar esta noção de experiência no conflito temporal entre continuidade (preservação) e limite (deterioração) trabalho na constituição de um pensamento-imagem a partir de um lugar. No enfrentamento desta tentativa de posição, a linguagem da experiência de lugar, como condição de fundo, é um estado de perda. Um trabalho com restos, com um limite da linguagem na matéria. Na matéria da palavra corpo a matéria da palavra tempo se conecta ao lugar pela matéria da palavra experiência. Resta o corpo, o corpo do filme.

Até aqui, persegui uma ideia de experiência, desejando constituí-la enquanto uma posição em relação à prática audiovisual. Me localizei entre a potência de um pensamento que parte da palavra (raiz) e a potência de um pensamento que parte da imagem (sonho, gesto, matéria), inclusive da imagem da palavra. A radicalidade de Giorgio Agamben e as luminescências de Didi-Huberman me habitam nessa tentativa. Ambos inscrevendo Walter Benjamin, Aby Warburg e seus interlocutores na política da imagem da minha prática subjetiva e na forma-de-vida através dela. É em estado de esgotamento que, diante da experiência de realização do filme A CASA, esvazio palavras para formar aberturas para outras imagens.

Destruição ou sobrevivência?

O que habita A CASA revela o aspecto limiar da experiência, lugar nem interioridade, nem exterioridade, umbral temporal entre destruição e sobrevivência, continuidade e deterioração.

Se não há como falar da experiência sem buscar pela experiência de falar da experiência, como tornar presente o que não está?

Diante do que nos acontece (DELEUZE, 1974), na abertura que a experiência possibilita (PELBART, 2013), as palavras se ausentam como potência-de-não (AGAMBEN apud CASTRO, 2012).

Enquanto o Estado pratica sua política contra todos, com apoio paradoxal de considerável parcela da sociedade, a usurpação do pensamento pelas redes sociais transforma palavras e imagens em opiniões empunhadas como armas na perseguição e captura do outro, insuflam ainda mais este tempo de terror, controle, hipocrisia e eletricidade ao ponto de não haver mais escuros. Sob “um regime de luminosidade obcena (…)” (PELBART, 2013), somos expropriados da nossa própria capacidade de fazer e de ter experiências. Ao tornar a vida a dimensão de uma poiésis, como destruir a destruição da experiência (LIMA, 2015)?

Movimento sinuoso descendente. Início do caminho, início da pesquisa. Escuro.

Entre o filme em processo e a escrita a partir do processo do filme, embrulhei com papel objetos de metal, ferramentas do mecanismo de moagem encontrados no moinho, para oxidar a passagem do tempo. Pensava na escrita como um fenômeno duplo de aparecimento: de dentro pela oxidação, por fora pelo contorno da forma do objeto embrulhado. Pensava na escrita como um processo de desenho e queria escrever oxidando o papel e definindo sua forma a partir do seu interior. Com todas as condições de tempo, umidade e materiais de inscrição, esperei até perceber que não iria produzir uma situação textual. Falta o objeto embrulhado como falta um nome para referir àquilo que ainda-não-é (BLOCH, 2005) além de indicar o lugar?

Escritura

Nesse confronto com a escritura, foram as imagens dA CASA que me aconteceram pela ação do tempo e recorro à elas no processo de construção de um pensar por imagens, os fenômenos da experiência. Fragmentos de uma escritura dedicada ao aprendizado de um processo de pesquisa são como sobreposições de todos os gestos imaginados e realizados ao longo de um percurso de produção dA CASA do Moinho, filme realizado entre 2015-2017.

Esse foi o tempo para a formação de uma reflexibilidade entre fazer e pensar. Pensar o próprio trabalho é um gesto de montagem anacrônico para pensar os ainda-nãos e insuficiências mas que em raríssimos momentos senti a felicidade de um pensamento acontecendo. Falo isso porque relendo um trecho do prefácio do trágico barroco agora algo aconteceu. E falava em Umweg, em caminho dos começos.

 

 

Fotogramas ensaio caminhando

ação Janete Fonseca, BASE-film, 12min, 06 fevereiro 2018, Moinho

 

Pensamento-biblioteca

AGAMBEN, Giorgio. Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005. 21-78p.

BENJAMIN, Walter. Experience. In: Early writings (1910-1917). Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2011. 116-119p.

_________________. Experiência e pobreza. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas. Vol. 1. 3ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. 114-119p.

_________________.  Questões introdutórias de crítica do conhecimento. In: Origem do drama barroco alemão. São Paulo: Brasiliense, 1984. 50-79p.

BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Vol. 1. Rio de Janeiro: Editora Contraponto, 2005.

CASTRO, Edgardo. Introdução a Giorgio Agamben: uma arqueologia da potência. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012.

DIDI-HUMBERMAN, Georges. Sobrevivência dos vaga-lumes. 1ª ed. Editora UFMG: Belo Horizonte, 2011.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Limiar, aura e rememoração: ensaios sobre Walter Benjamin. 1ª ed. São Paulo: Editora 34, 2014.

GONÇALVES, Flávio. Documentos de Trabalho: percursos metodológicos. Texto de apresentação da disciplina Documentos de Trabalho, Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais – Instituto de Artes – UFGRS, 2016.

LIMA, Manoel Ricardo de Lima. O homem, o animal: máquinas de linguagem e memória (seminário). Porto Alegre: Auditório da Clínica de Atendimento Psicológico da UFRGS, 2015.

LUDUEÑA ROMANDINI, Fabián. A ascensão de atlas: glosas sobre Aby Warburg. Cultura e Barbárie: Florianópolis, 2017.

PELBART, Peter Pál. O avesso do nilismo: cartografias do esgotamento. São Paulo : N-1 Edições, 2013. 37-47p.

_________________. A potência de não: linguagem e política em Agamben. Revista Estudos da Língua(gem). Vol. 15. Nº 1. Vitória da Conquista, Bahia. 2017. Disponível em <http://www.estudosdalinguagem.org/index.php/estudosdalinguagem/article/view/532>. Acesso em 08 novembro 2017.

ROLNIK, Suely. Seminário Novos Povoamentos. Núcleo de Estudos da Subjetividade. PUC – SP. 30 de setembro de 2016. Disponível em : <https://www.youtube.com/watch?v=3DX65xU5i8o>.

_____________. Pensar a partir do saber-do-corpo: uma micropolítica para resistir ao inconsciente colonial. Seminário P.A.C.A. Casa do Povo. 25 de novembro de 2015. Disponível em : <https://vimeo.com/173605359>.

SOUSA, Edson Luiz André de. Agulhas para desativar bombas: utopias artísticas e políticas da imagem – Utopia, arte e psicanálise (seminário). Porto Alegre: Instituto de Psicologia, UFRGS, 2017.

WARBURG, Aby. Introdução à Mnemosine. In: Histórias de Fantasma para gente grande. São Paulo, Companhia das Letras, 2015.

 

Trabalho apresentado originalmente no seminário Agulhas para desativar bombas: utopias artísticas e políticas da imagem realizado em dezembro de 2017 pelo Laboratório de Pesquisa em Psicanálise Arte e Política (LAPPAP/UFRGS) e PPG Psicanálise Clínica e Cultura/UFRGS, em Porto Alegre/RS.

camila leichter (porto alegre, 1976). pesquiso os aspectos processuais, imersivos e performativos da prática artística a partir da experiência de lugar. desde 2012, integro a BASE-film, plataforma de produção audiovisual que acontece entre experiências imersivas de produção e convívio, quando operamos topografias em forma de filmes. desde 2014, a partir datransmigração do corpo e de hábitos urbanos para uma experiência na terra, passo a convergir processos de trabalho individual e coletivo com o processo de transformação do lugar e seu entorno. este é o contexto de formação de Moinho Edições Limitadas, iniciativa que pretende acionar e compartilhar, em pequenas tiragens, a partir deste retorno à matéria, uma produção gráfica, fotográfica e processual, inclusive residual da prática audiovisual, envolvendo uma coleção de pensamentos-imagem, mnemônicos, fenomênicos e performáticos, das especificidades da ruína que habito.