Há 50 anos, um oásis em tempos sombrios chamado Museu Lasar Segall Editorial Psicanalistas pela Democracia

Acervo Museu Lasar Segall

Em meio ao cataclisma de retrocessos no Brasil, é necessário e comum que, vez ou outra, procuremos abrigo, quietude, lugar de pensamento e de reposição das energias e renovação do sentido utópico de nossos conceitos e desejos sobre o Brasil que amamos, e que não cessa de ser vilipendiado, agredido, extorquido pela elites do atraso, bem descritas por Jessé de Souza.

São lugares onde ainda vigora a esperança, a arte, a cultura e o pensamento construídos a partir de nossas mestiçagens e inspirações caboclas, índias, negras, imigrantes.

As vezes esquecemos que esses lugares de repouso e meditação existem em nossas cidades brasileiras. Eles estão lá, há décadas, realizando o mesmo trabalho com a persistências das árvores frondosas que estendem suas sombras sobre os caminhantes e sintetizando o oxigênio tão necessário para um novo respiro que deliciosamente preenchem nossos pulmões com ar fresco das melhores esperanças.

A exposição que ocorre até o final do mês de abril A “arte degenerada” de Lasar Segall: Perseguição à arte moderna em tempos de guerra, é um convite a esse breve retiro.

Ali temos acesso à algumas das 43 obras de Lasar Segall confiscadas pelo regime nazista, das quais algumas delas foram apresentas em Munique na conhecida exposição organizada pelo governo alemão e intitulada Arte Degenerada, cuja abertura ocorreu em julho de 1937. Entre os 112 artistas ‘degenerados’ estavam incluídos Marc Chagall, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Piet Mondrian entre outros

No mesmo período, no Brasil, a arte de Segall também era nomeada como arte degenerada, momento em que o artista sofria ataques tanto na Europa e na Alemanha nazistas quanto no país onde Segall, de origem lituana, residia e elegeu como seu.

O Museu Lasar Segall tornou-se único por abrigar o conjunto das obras de Lasar Segall, atividades culturais contínuas, com funcionários profundamente implicados com a obra de Segall e com a memória de seu filho Maurício Segall que defendia, dentro e fora do museu, os princípios que o caracterizavam como homem de esquerda no pensamento, na cultura e na ação.

A tentativa de administrar o museu e a relação com os funcionários seguindo princípios socialistas é, até hoje, relembrada pelos funcionários que ainda trabalham no instituição.

A conhecida solidariedade aos perseguidos políticos do regime civil-militar iniciado em 1964, seu engajamento na luta contra a ditadura e envolvimento na fundação do Partido dos Trabalhadores são conhecidas. Também são conhecidas seu auxílio a muitos perseguidos durante o regime civil-militar que Maurício ajudou pessoalmente a abrigar ou a sairem do país; em várias ocasiões se prestando como motorista para facilitar a saída dos perseguidos para fora do Brasil em viagens entre São Paulo e o Uruguai. Tal envolvimento o levou à prisão em 1973, por dois anos durante o regime civil-militar.

No seio dessa inspiração e rodeados pelas das obras de Lasar Segall dedicadas ao povo brasileiro, aos emigrantes e aos flagrantes de violência cometidos pelos progoms e peloregime nazista na europa, contra os judeus, vemos também representados por Segall em suas pinturas, gravuras e esculturas o sofrimento no corpo dos agredidos e atingidos, mas também a cabeça altiva, os olhos no horizonte e a dignidade e humanidade inspiradora dos homens, mulheres e crianças, deslocados, atacados, perseguidos pela força bruta de regimes e pessoas determinadas a manter privilégios, preconceitos e muralhas narcísicas que se erguem enquanto praticam a violência que, julgam, os salvará pelo ritual de destruição de outros. No mesmo vórtice em que aprofundam dessemelhanças, convertidas em oposições binárias, categorias mutuamente excludentes e esquizoidias inultrapassáveis cujo paradigma nazista Segall pintaria em sua aquqrelas (1940-1943-Visões de Guerra).

Na acolhedora casa onde residiu Lasar Segall, hoje museu, encontramos a realização dos sonhos de cultura, a inscrição de princípios inspiradores e a pausa para o café para retornar, mais inspirados, às mesmas lutas pelo Brasil que pai e filho (Lasar e Maurício) empreenderam e que se encontra vivo no coração dos verdadeiros brasileiros –nascidos ou não no Brasil- que inundaram o país do mais genuíno espírito de liberdade proclamados pela arte, pela cultura e pela luta continuada contra as fraturas, convertidas em desigualdades que tanto intoxicam e maculam o país.

Em tempos de retrocesso histórico, nada como sentir, emanando de um pequeno museu em uma pacata rua da Vila Mariana, o Brasil pelo qual muitos de nós lutamos e haveremos de ver nascer. Tal como La Chascona de Pablo Neruda em Santiago, a casa Azul de Frida Khalo na cidade do México, a casa Segall é um recanto inspirador onde podemos pausar à sua sombra enquanto tentamos compreender as repetições que perduram, mas também as mudanças que ocorreram no país, discreta e consistentemente, enquanto fazia escuro.

Republicamos abaixo texto de Roberto Schwarz sobre Maurício Segall, filho de Maurício Segall, primeiro diretor do Museu lasar Segall e falecido em 2017, então com 91 anos. Texto republicado no blog da boitempo (https://blogdaboitempo.com.br/2017/08/02/roberto-schwarz-contradicoes-de-mauricio-segall-fizeram-dele-homem-de-excecao/):

“Vou ser breve. Para entender a pessoa de Maurício Segall é preciso, na minha opinião, considerá-lo como um pacote explosivo de tensões. Por um lado, descendente de uma família rica e filho de Lasar Segall, um dos grandes pintores de nosso tempo. Por outro, comunista convicto e radical, numa acepção nobre, que vai além da filiação partidária e que a evolução histórica do comunismo deixou sem base.
Essa bomba de contradições é tornada mais potente por um temperamento vulcânico, à moda russa, e pelo desejo exasperado de integridade e de coerência. Tudo isso misturado, mais a extraordinária energia física, fizeram dele um homem evidentemente de exceção. O seu aspecto grão-burguês aparecia na naturalidade com que mandava e na sobriedade “no nonsense” com que considerava as questões de interesse material. A verdade é que, entre o materialismo de proprietário e a clareza do administrador de esquerda, responsável pelo governo de uma instituição, havia mais coisas em comum do que costumamos admitir.
Por sua vez, a devoção ao acervo pictórico do pai, tratado como um patrimônio da humanidade, da cidade ou da nação, e não da família, não tinha nada de burguesa. A generosidade com que ele e o irmão financiaram o museu, ao qual doaram as suas coleções Segall, de grande valor, além de imóveis e dinheiro, pertence a um mundo surpreendente, sem mesquinharia, em que a arte conta mais do que a propriedade.
Quanto à vertente comunista, ela se manifestava na concepção mesma do museu. A orientação pró-moderna mas antimercantil, empenhada na deselitização da cultura, bem como a organização democrática, em que os funcionários têm voz e iniciativa, apontavam para além do capitalismo. Chegados aqui, não há como não mencionar que esses aspectos avançados da posição de Mauricio e do museu foram historicamente derrotados pelo curso geral do mundo, que tomou o rumo do aprofundamento da mercantilização, inclusive e notadamente da cultura.
Para dar uma ideia do teor de conflito nas posições de Maurício, vou contar uma anedota. Estávamos os dois passeando na praia, quando chegamos a um conjunto de pedras enormes, que o acaso havia equilibrado de maneira esplêndida. Cometi a imprudência de observar que o conjunto, embora sem assinatura de artista, competia com a escultura moderna. A resposta veio amarga e exaltada: o arranjo natural das pedras era superior a qualquer obra de arte, pois era acessível a todo mundo, sem o ranço elitista de museus e exposições e sem o esnobismo e a competitividade de todo trabalho artístico. Por um momento breve mas lancinante, aí estavam as injustiças da sociedade de classes, que não perdoam, anulando o trabalho de vida inteira do criador de um museu modelo de democracia. Frente à beleza das pedras e à inaceitável desigualdade social, que subitamente se traduziam em raiva da arte, a dedicação meticulosa e amorosa à obra do grande pintor Segall ficava mal parada. Tivemos que espichar o passeio para que Mauricio recuperasse a calma.
Para concluir meu depoimento, quero falar na solidariedade de Mauricio com os amigos perseguidos pela ditadura, solidariedade da qual eu mesmo me beneficiei para sair do Brasil. Enquanto não foi agarrado ele próprio pela repressão, Mauricio ajudou de muitas maneiras a luta contra a ditadura, às vezes com risco de vida. Com sua perícia no volante e energia de touro, ele perguntava pouco e estava sempre disponível para fazer a longa viagem de automóvel de São Paulo à fronteira do Uruguai, para ajudar alguém a fugir. Dezesseis horas de ida, três de descanso e mais dezesseis de volta – e a vida continuava.”

Roberto Schwarcz-Texto publicado originalmente no dia 2 de agosto de 2017 na Folha de São Paulo, por ocasião da morte de Maurício Segall. Uma versão deste depoimento foi gravada na sexta-feira, dia 28/7, por ocasião das comemorações dos 50 anos do Museu Lasar Segall.