“De ouvidos e olhos bem atentos: para localizar o momento presente”, Por Sílvia Nogueira de Carvalho

Os artistas sempre souberam isso; só a beleza nos permite não fugir da maldade e da infelicidade e sim delas nos aproximarmos, sem temor nem piedade, para transformá-las. Mas, felizmente, isso não lhes está reservado.
Philippe Julien

No princípio do século XX surgiu, no interior das correntes modernistas, a escola expressionista de pintura. Encontram-se em sua gênese a recusa do positivismo e dois principais centros para uma arte internacionalista:

– o movimento alemão intitulado A ponte (Die Brücke) – na passagem da tradição para o desconhecido, a retratar o mal-estar da época;

Autorretrato, Ernst Ludwig Kirchner

– o movimento francês das feras (os fauves) – do qual a vibrante expressão da Alegria de viver, de Matisse (1906), é um expoente.

A alegria de viver, Henri Matisse

Literalmente, expressão é o contrário de impressão e o Expressionismo de fato se põe como antítese do Impressionismo, ao enfatizar igualmente a abordagem direta da realidade, mas através de uma atitude volitiva em que é o sujeito que se projeta sobre o real, objetivando-se.

A Áustria pertence à órbita cultural alemã, num tempo histórico de ritmo mais lento. Egon Schiele (1890-1918) desenvolveu em sentido expressionista a melancolia de Gustav Klimt (1862-1918), com violência desesperada. Ao mergulhar nas profundezas da psique, Schiele fez ingressar pela primeira vez, na história da pintura, a crueza carnal do sexo.

Mulher deitada, em vestido amarelo, Egon Schiele

Igualmente formado na Viena dos anos da Secessão – movimento que recusava a tradição acadêmica nas artes -, Oskar Kokoschka (1886-1980) se ligou aos pintores alemães da Brücke. Dispôs cores vigorosas, de beleza decaída e degradada, para retratar, por exemplo, Crianças brincando (1909) com a falta de precisão convencional que expõe movimentos desgraciosos e desarmonias de seus corpos em crescimento. Sua pintura já não distingue sujeito e objeto e nela o mundo que se vê é o mundo em que se está, colocando-nos diante da questão do signo, pela busca da transcrição imediata de um estado sensorial ou afetivo.

Crianças brincando, Oskar Kokoschka (óleo sobre tela, 73 x 108 cm)

 

O movimento expressionista da pintura à música de Arnold Schönberg

A música tomou de empréstimo da pintura o termo expressionismo para se referir ao exagero e à distorção operada em composições do romantismo tardio. O compositor Arnold Schönberg (1874-1951) – que também era pintor e escritor – assim como seus alunos Alban Berg (1885-1935) e Anton Webern (1883-1945) se tornaram conhecidos como A segunda escola de Viena. A primeira escola de Viena foi composta por Mozart, Haydn e Beethoven e teve Gustav Mahler (1860-1911) como o sucessor que levou a tradição romântica até o século XX. Em algumas das sinfonias de Mahler, se incluem solo vocal e coro, seguindo o exemplo de Beethoven na Nona Sinfonia (Coral). A Oitava Sinfonia de Mahler (1906) é chamada Sinfonia dos Mil, pois precisaria de no mínimo mil músicos para uma execução ideal .

Por sua vez, a música expressionista, em estilo atonal, se caracteriza por harmonias extremamente dissonantes, melodias frenéticas que incluem grandes saltos e contrastes explosivos.

A fim de nos aproximarmos afetivamente do tipo de experiência musical em jogo na atonalidade, vale lembrar que, no Brasil, ela se popularizou no trabalho pioneiro da vanguarda paulista de Arrigo Barnabé que, em 1980, lançou a ópera pop intitulada Clara Crocodilo. Aparentemente agressiva, a música de Arrigo se dedica a tornar transparente, em forma, a agressividade da realidade – agressividade do processo de industrialização total pelo qual a América Latina passava, urbanizada em seus pontos nevrálgicos sobre a ruína de suas tradições. A obra de Arrigo dialoga com a criação de Schönberg por seu caráter de distorção e desintegração do centro tonal – ora livremente atonal, ora dodecafônica.

Dodecafonismo foi o novo procedimento formulado por Schönberg a partir dos anos 1920, visando à unidade e coerência de uma peça atonal. Na música dodecafônica está em jogo um serialismo no qual o compositor ordena todas as 12 notas da escala cromática numa sequência de sua própria escolha. Forma assim a série fundamental, em que vai basear toda a composição. Todas as 12 notas têm igual importância e nunca devem aparecer fora de sua vez.

Mas antes de configurar seu estilo composicional expressionista, e incentivado tanto por Mahler quanto por Alexander von Zemlinsky (1871-1942), o jovem Schönberg havia criado peças pós-românticas tais como Noite transfigurada Op. 4 (1899), longo movimento no qual encadeia uma série de acordes dissonantes. O sexteto de cordas (2 violinos, 2 violas, 2 cellos) é baseado no seguinte poema de Richard Dehmel (1863-1920):

Duas pessoas caminham por um bosque desfolhado e frio;
a lua os acompanha, eles a observam.
A lua caminha sobre os altos carvalhos,
nenhuma nuvenzinha perturba a luz do céu,
no qual galhos escuros se espalham.

A voz de uma mulher diz:
Carrego uma criança, e ela não é tua,
Caminho ao teu lado em pecado.
Cometi um grave delito contra mim mesma.
Não acreditava mais em minha felicidade
mas ainda tinha um forte anseio
por algo que preenchesse minha vida,
pelas alegrias e deveres de ser mãe;
por isso cometi uma ousadia,
e, estremecendo, deixei o meu sexo
ser possuído por um estranho,
e acabei sendo abençoada por isso.
Agora a vida se vingou:
agora que eu te encontrei.

Ela caminha com passos trôpegos.
Ela olha para cima; a lua a acompanha.
Seu olhar triste afoga-se em luz.

A voz de um homem diz:
Que a criança que concebeste,
não seja um peso em tua alma,
Ah, vê como o universo resplandece!
Há um brilho que rodeia tudo;
Tu navegas comigo no mar gelado,
mas um calor íntimo está fluindo
de ti para mim, de mim para ti.
Ele transfigurará a criança alheia,
E tu a parirás para mim, e de mim.
Tens dado a mim este ardor,
Tens feito de mim mesmo uma criança.

Ele a agarra pelos rijos quadris.
Seus suspiros se beijam nos ares.
Duas pessoas caminham pela noite alta e brilhante.

 

Anri Sala atualiza Schönberg

Anri Sala (1974- ) é um jovem artista albanês que, desde muito novo, produz entre França e Alemanha. Aos 44 anos, sua obra surpreende pelos paradoxos de tempo e espaço colocados em cena a partir da experiência acústica. Os momentos presentes mais prolongados nos acontecem quando ouvimos música? Como notou Didier-Weill (1999), uma primordial pulsão invocante se encontra na experiência de um entusiasmo que arranca o sujeito de seu esquecimento. Eis porque o homem não se contenta em falar, sendo preciso também que ele cante?

A amplidão da galeria 1, em que a mostra de Anri Sala foi aberta, em dezembro de 2017, no Instituto Moreira Salles de São Paulo, abarcaria nossos futuros suspiros diante das demais produções audiovisuais do artista, que depois aportaram por ali, um andar acima, no mês seguinte, janeiro de 2018.

Seus filmes ou cenas de filmes para galeria de arte perfilam figuras, rastros e cores dos riscos contemporâneos do viver: na sala de cinema, o vermelho suspenso nos trajes discretos da musicista que, allegro non troppo, insiste em arriscar diariamente a vida para ensaiar a paixão do primeiro movimento da 6a sinfonia de Tchaikovsky (1893), junto da Filarmônica de Sarajevo e ao longo dos 1395 dias de duração do cerco da cidade (Guerra da Bósnia, 1992-1996).

Na galeria 2, o negro free jazz suavemente defenestrado pela janela aberta à paisagem natural berlinense que é avistada do 18o andar de um conjunto habitacional modernista, onde ele está dependurado (Long sorrow, 2005). Também o branco desencontro do casal que igualmente não se escuta: ele, olhos fixos, virado para a parede da cúpula geodésica que amplifica o som de sua performance musical na bateria, ao ponto de fazer vibrar a superfície do tambor do outro lado da sala, aparentemente tocado sozinho pelas duas baquetas que se encontram sobre seu couro; ela, desfocada, ao lado do tambor, à espera das palavras que não vêm (Answer me, 2008). E, ainda, os intraduzíveis nomes de cores do francês ao uólofe, idioma senegalês que entretanto dispõe de múltiplas palavras para dizer diferentes tons de preto e de branco – simultaneamente vertidas, em Làk-kat 3.0 (Brazilian Portuguese / Portuguese / Angolan Portuguese) (2016), para o português falado no Brasil, em Portugal e em Angola, de modo a multiplicar coloniais desentendimentos.

Por fim, e nas origens de nosso encantamento, Le Clash (2010): estranho familiar passeio, singelo, em caixa de música e em realejo, pelos suaves arredores de uma antiga casa de baladas de punk rock de Bordeaux. Mas também, ao avesso, do outro lado da mesma tela, Tlatelolco Clash (2011): inserção, num órgão mecânico, de fragmentos da canção do The Clash, efetuada pelos passantes, de diferentes idades e origens, da praça das Três Culturas, na Cidade do México, com suas ruínas do templo asteca, sua igreja espanhola colonial e seu conjunto habitacional modernista, a perguntar: Should I stay or should I go?

Mas porque a memória pode ser pensada como um sintoma da passagem do tempo (Bell, 2016), voltemos a O momento presente antes que ela nos empurre de volta ao passado. Sendo este o título da mostra, é também especificamente o nome da ocupação audiovisual, de 14 minutos de duração, do espaço que vai sendo tomado pelo som: são 7 minutos iniciais de brancura nas 2 grandes telas que, dispostas nos cantos direitos da galeria, nada sustentam. Neste intervalo, somos só escuta em nossa jornada pelo espaço expositivo, ao acompanharmos o andamento das notas das novas partituras cromáticas da noite reconfigurada. Logo baquetas de bateria começam a marcar presença, ao percutirem tambores suspensos no teto da galeria , que levitam sobre nossas cabeças feito a impressão das coisas de um Tarkovski imaterial no planeta Solaris (1972) ou a expressão de sua leveza esboçada no estúdio vermelho de Matisse (1911).

Nos demais 7 minutos da instalação, a música culmina no isolamento de duas notas, tocadas repetidamente, em sequência, e chegam às telas as imagens visuais dos dois diferentes vídeos – ali ré, lá si bemol. Devido ao posicionamento das telas, nosso olhar dividido jamais alcança a percepção simultânea das projeções dos fragmentos corpóreos dos integrantes da orquestra de câmara. No momento presente, lances se perdem; nos relances da parcialidade dos corpos, se avistam movimentos de cotovelos, pulsos, mãos, olhos, rostos, braços, arcos dos braços, pescoços, perfis, lombares, dedos, escápulas, notações musicais, orelhas, coxas, testas, suores, arcos dos instrumentos, enquanto se escuta essa música desconcertante.

The present moment (in B-flat), Anri Sala, 2014

Ao romper deste modo com a organicidade dos limites tonais de Noite transfigurada, Sala atualiza Schönberg sob amorosa perspectiva, uma vez que opera sua recriação assumindo os termos deste, apropriando-se do método do compositor vienense. Sala atualiza o outro a partir de seu devir, de seu a posteriori. Em suas palavras, “é como se o Schönberg estivesse olhando para uma versão mais jovem de si próprio” .

Se um presente pode se configurar como um equivalente simbólico do poder, tipo privilegiado de objeto cristalizado no tempo, pode entretanto valer pelo gesto, pelo dom do desejo presente como acontecimento. Tal reviramento – do objeto à experiência estética –, por sua potência de afetar, nos convida a pensar, por extensão, uma psicanálise contemporânea capaz de atualizar Freud amorosamente, nos termos atentos de seu método de escuta da enunciação do inconsciente, de sua clínica inscrita na corrente de libertação da loucura (Robert) e de sua oposição teórica e prática ao fascismo (Foucault).

Diz o filósofo Jacques Derrida, um amigo da psicanálise, que nosso problema não é propriamente o de receber uma herança mas o de ser herança, não dogmática: “nem aceitar tudo, nem fazer tábula rasa” (Roudinesco, 2004). Sejamos, pois, essa herança disruptiva, viva e não inerte, herança jovial disposta a assinalar a transfiguração dos assujeitamentos cotidianos, a partir da vivacidade pulsante entre nós – na clínica, na transmissão da psicanálise e em sua crítica aberta à cultura. Em atenção à multiplicidade de saberes que possam diferir e circular em nossas pequenas câmaras – estúdios, salas de aula – assim como nos espaços abertos das cidades. Saberes que dispensem maestros e se coloquem disponíveis à saúde, à educação, à arte, ao direito, à assistência social, à administração pública. Enfim, à variedade de práticas sociais democráticas que nos dizem respeito.

 

Referências:

Argan, G. C. Arte moderna: do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

Bell, N. “Passado imperfeito e futuro presente”. In: Espada, H. (org.). O momento presente / Anri Sala. São Paulo: IMS, 2016.

Bennett, R. Uma breve história da música. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1982.

Brown, C. Um por um. São Paulo: Três estrelas, 2014.

Cavazotti, A. O serialismo e o atonalismo livre aportam na MPB: as canções do LP Clara crocodilo de Arrigo Barnabé. Disponível em: http://www.musica.ufmg.br/permusi/port/numeros/01/num01_cap_01.pdf

Cueto Jr., A. Noite transfigurada. Disponível em: http://euterpe.blog.br/analise-de-obra/noite-transfigurada-parte-i

Derrida, J. & Roudinesco, E. De que amanhã… Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

Didier-Weill, A. Invocações: Dionísio, Moisés, São Paulo e Freud. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.

Espada, H. (org.). O momento presente / Anri Sala. São Paulo: IMS, 2016.

Foucault, M. História da sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1977.

Gombrich, E. H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 2009.

IMS. Anri Sala: O momento presente. Disponível em: https://ims.com.br/exposicao/anri-sala-o-momento-presente-sp/

Julien, P. Abandonarás teu pai e tua mãe. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.

Robert, M. A revolução psicanalítica. São Paulo: Perspectiva, 1991.

Schönberg, A. Noite transfigurada. Disponível em: http://www.schoenberg.at/index.php?option=com_content&view=article&id=173&Itemid=347&lang=de