Feminismo(s) como utopia. Agulha nº 5. Carolina Eidelwein¹

Em 1405, Cristina de Pizán, uma precursora da escrita profissional na literatura francesa, toma a palavra – em um período histórico em que não era algo trivial uma mulher fazê-lo – e trata de escrever uma história das mulheres desde uma perspectiva feminina. Ela publica O Livro da Cidade das Mulheres², considerado uma clara antecipação do feminismo moderno.

Mais especificamente, sua obra esteve centrada na condição feminina por mais de 30 anos. Neste livro, Cristina lança mão do compilatio, um procedimento utilizado na poética medieval, o qual conhece seu auge no século XV e que consiste em fazer de outros textos um novo texto, reapropriar-se do discurso de outros autores. A principal fonte de sua “compilação” é o livro De Mulieribus Claris (Mulheres famosas, em tradução livre), uma espécie de enciclopédia de biografias de mulheres mitológicas ou personagens históricas escrita por Giovanni Boccaccio, publicada em 1374. Ou ainda: um livro de regimento das damas para o bom governo de suas almas. Nele, o autor desconfia da natureza feminina por sua debilidade e falta de inteligência – “as mulheres, que acabam de estrear uma alma que lhes havia sido negada em outros momentos, têm um intelecto fraco, mas que não se pode comparar com os dotes a que a Natureza brindou tão generosamente ao sexo varonil” (Lemarchand, 2006, p.32)³.   

Compilar, no caso de Cristina, significa reformular o discurso dos homens dando-lhe nova forma. Na construção de sua cidade-texto, quer dizer, na reescritura ou reconstrução da história das mulheres, a autora vai descartando, como “pedregulhos que não servem para a construção”, o discurso que hoje chamaríamos de machista/misógino (Lemarchand, 2006, p.29). Seu argumento principal, epílogo do texto, é o de que “se as mulheres tivessem escrito os livros, tenho certeza de que o teriam feito de outra forma, porque elas sabem que as acusam em falso”. Convida às mulheres a examinarem as lições de sua experiência pessoal frente às “verdades” do douto discurso masculino. E várias vezes busca impulsionar a mulher a desconfiar dos autores e a construir suas próprias verdades, com base em sua experiência pessoal como fonte de saber mais segura.

A cena inaugural do livro é o momento em que Cristina encontra-se triste e perplexa em seu quarto de estudos frente à constatação de que filósofos, poetas, moralistas, todos “parecem falar com a mesma voz para chegar à conclusão de que a mulher, ruim por essência e natureza, sempre se inclina para o vício” (de Pizán, 2006, p.64). A partir disso, passa a questionar a si própria, abandonada a suas reflexões, chegando a se depreciar e a todo o sexo feminino, sem conseguir compreender tamanha aberração que é nascer em um corpo de mulher.

Hundida por tan tristes pensamientos, bajé la cabeza avergonzada, los ojos llenos de lágrimas, me apoyé sobre el recodo de mi asiento, la mejilla apresada en la mano, cuando de repente vi bajar sobre mi pecho un rayo de luz como si el sol hubiera alcanzado el lugar, pero, como mi cuarto de estudios es oscuro y el sol no puede penetrar a esas horas, me sobresalté como si despertara de un profundo sueño. Levanté la cabeza para mirar de dónde venía esa luz y vi cómo se alzaban ante mí tres Damas coronadas, de muy alto rango. El resplandor que emanaba de sus rostros se reflejaba en mí e iluminaba toda la habitación.(…) Entonces la primera de las tres Damas me sonrió y se dirigió a mí con estas palabras:

– No temas, querida hija, no hemos venido aquí para hacerte daño sino para consolarte. Nos ha dado pena tu desconcierto y queremos sacarte de esa ignorancia que te ciega hasta tal punto que rechazas lo que sabes con toda certeza para adoptar una opinión en la que no crees, ni te reconoces, porque sólo está fundada sobre los prejuicios de los demás (p.66). (…) Yo te recomiendo que des la vuelta a los escritos donde desprecian a las mujeres para sacarles partido en provecho tuyo, cualesquiera que sean tu intenciones (p.67).

Debes saber que existe además una razón muy especial, más importante aún, por la cual hemos venido, y que vamos a desvelarte: se trata de expulsar del mundo el error en el que habías caído, para que las damas y todas las mujeres de mérito puedan de ahora en adelante tener una ciudadela donde defenderse contra tantos agresores (p.69).

Así, querida hija, sobre ti entre todas las mujeres recae el privilegio de edificar y levantar la Ciudad de las Damas. Para llevar a cabo esta obra, como de una fuente clara, sacarás água viva de nosotras tres. Te proveeremos de materiales más duros y resistentes que bloques de mármol macizos que esperan a estar sellados. Así alcanzará tu Ciudad una belleza sin par que perdurará eternamente (p.70).

¡Levántate, hija, mía! Salgamos sin tardanza hacia el Campo de las Letras. Es allí, en aquel país rico y fértil, donde será fundada la Ciudad de Las Damas, allí donde se hallan mansos ríos y vergeles cargados de fruta, donde la tierra produce buenas y abundantes cosas. Coge la azada de tu inteligencia y cava hondo. Por donde veas el trazado de mi regla, cava un foso profundo, yo te ayudaré cargando la tierra en cestas que llevaré a hombros (de Pizán, 2006, p.75).

 

A narrativa vai se desenrolando em torno do debate e da troca de ideias entre a autora e as três Damas que a visitam, as quais recebem o nome de Razão, Retidão e Justiça. Cristina faz perguntas e contesta as damas, fundamentada nas opiniões masculinas sobre as mulheres que havia encontrado em suas leituras. As Damas propõem a edificação de uma cidade como refúgio de altas muralhas para proteger a honra das mulheres, povoada com mulheres valiosas que vão sendo citadas na conversa entre as quatro. Entre elas, mulheres prudentes, ajuizadas; mulheres que descobriram ciências desconhecidas; mulheres que governaram; profetizas; filhas que amaram a seus pais e mulheres que amaram profundamente a seus maridos; homens que tiveram boa fortuna por ter seguido conselho de uma mulher; mulheres que assistiram ao martírio de seus próprios filhos etc.

 

– ¡Qué felices vivirán las damas de nuestra ciudad! No tendrán que temer ser expulsadas por ejércitos extranjeros, porque la obra que hemos ido construyendo tiene una propiedad especial, la de ser inexpugnable. Ahora empieza la era del Nuevo Reino de Femineidad, muy superior al antiguo reino de las amazonas, porque las damas que habiten aquí no tendrán que marcharse para concebir y dar a luz nuevas herederas que mantengan sus posesiones y perpetúen su linaje. Quienes se alojen aquí, ahora, vivirán en esta Ciudad eternamente (de Pizán, 2006, p.169).

 

Cristina propõe, trazendo exemplos de mulheres que se destacam, “como mulheres”, por suas qualidades e invenções e não como seres excepcionais, que a mulher deve reapropriar-se do mundo, sem deixar de ser mulher e, assim, põe sua pena a serviço da defesa das causas das mulheres, numa tomada de posição ética e política.

 

Utopia feminina?

O gênero literário denominado literatura de utopia foi inaugurado pela obra Utopia, de Thomas Morus, publicada em 1516. Embora escrito mais de um século antes, O Livro da Cidade das Mulheres porta certas características que o aproximam desse tipo de narrativa, tais como o encontro com um mundo perfeito e a comparação deste com o mundo do narrador (Silva, 2007). Existem referências à obra de Cristina de Pizán como configuração de uma utopia feminina, referência que Marie-José Lemarchand chega a fazer na introdução do livro traduzido por ela. Entretanto, o que quer dizer a expressão “utopia feminina”? Utopia das mulheres? Utopia para as mulheres?

 

Tais perguntas foram embalando leituras e me levando a pensar nos movimentos feministas como utopia, em vez de utopias femininas ou feministas. Quando falamos de feminismo, feminino, machismo, masculino estamos falando de relações e posições do sujeito nessas relações. Quando falamos dos modos de silenciar as mulheres, os modos de silenciar os homens são inseparáveis da questão. “Todos nós existimos numa somatória de diversas espécies de silêncio, inclusive os silêncios mútuos que chamamos de papéis de gênero”, é o que sustenta a escritora e ativista Rebecca Solnit. Ela afirma que seus escritos são feministas, “mas não apenas sobre a experiência das mulheres, mas sobre a de todos nós – homens, mulheres, crianças e pessoas que estão questionando o binarismo e os limites do gênero” (Solnit, 2017, p.11).

 

Rebecca narra algumas situações pelas quais tem passado em sua vida profissional de escritora, perguntas que lhe são feitas em entrevistas, relativas a sua vida pessoal, seu estado civil, sobre os motivos pelos quais não teve filhos e assim por diante. Ela supõe que a maior parte dessas perguntas não seriam dirigidas a um escritor homem e é enfática quanto às entrevistas: “não existe nenhuma boa maneira de responder como é ser mulher; o truque talvez esteja em saber rejeitar a pergunta” (Solnit, 2017,p.15).

 

Esse posicionamento da autora me remeteu à proposição de recusa radical contida na função utópica, que diz respeito ao tensionamento das contradições do que aí está e da sustentação de paradoxos: os dados jogados exigem uma escolha entre um ou outro caminho. Ao recusar essa escolha, uma escolha inautêntica, pode-se escolher pelo que não está dado, “ainda não”.

 

um ainda-não-consciente demonstrando no seu estado desperto a vontade de aprender, a capacidade de ver ao seu redor por meio de uma previsão, de conjugar um olhar abrangente e uma prudência na sua previsão. Na medida em que a intuição autêntica se inicia com juventude, mudança de época, produção, ela encontra seu lugar entre as mais autênticas questões humanas (Bloch, 2005, p. 143).   

 

Solnit destaca que aquelas perguntas dos entrevistadores dirigidas a uma mulher são as velhas perguntas de sempre que continuam rondando – ainda que pareçam mais uma espécie de sistema coercitivo do que questões de fato. Para ela, são perguntas que pressupõem que, para as mulheres, só existe uma maneira certa de viver. “Talvez o problema seja literário: recebemos um roteiro único sobre o que é ter uma boa vida, mesmo que muitos que seguem fiéis ao roteiro tenham uma vida ruim. Falamos como se existisse um único enredo bom e um único final feliz, embora as inúmeras formas que uma vida pode assumir floresçam – e murchem – ao nosso redor” (Solnit, 2017, p.17).

 

Parece ter sido essa a preocupação de Cristina de Pizán no século XV: a possibilidade de fazer proliferar diferentes roteiros de vida e de fazer reverberar outras vozes para além do “discurso varonil” hegemônico. Lemarchand aponta que Cristina deu forma e imagem a seu livro, nascido de uma visão da autora. Na companhia de Bloch, podemos tomar essa visão como antecipação do que ainda não veio a ser, como ideia de intenção futura caracterizada como utópica

 

“mas não no sentido estreito desta palavra, definido apenas pelo que é ruim (fantasia emotivamente irrefletida, elucubração abstrata e gratuita), mas justamente no novo sentido sustentado do sonho para a frente, de antecipação. Assim, portanto, a categoria do utópico possui, além do sentido habitual, justificadamente depreciativo, também um outro que de modo algum é necessariamente abstrato ou alheio ao mundo, mas sim inteiramente voltado para o mundo: o sentido de ultrapassar o curso natural dos acontecimentos” (Bloch, 2005, p.22).

 

“seus conteúdos (…) compõem  (…) o que dá continuidade, de modo antecipatório, ao que existe nas possibilidades futuras de seu ser-diferente, de seu ser-melhor. Fantasia que antecipa psiquicamente um possível real” (Bloch, 2005, p.144).

 

Contudo, falar em utopia pode suscitar alguns equívocos. Edson Sousa destaca que a utopia não antecipa o que deve ser, pelo contrário, “todas as utopias tiveram a função de produzir textos ficcionais anacrônicos ao seu tempo, em um claro sentido provocador ao espírito crítico adormecido de suas épocas”. Para ele, a utopia é “a instauração de uma interrupção no contínuo do presente, um sonho que acorda” (Sousa, 2009, p.399-400).

 

Nesse sentido, Lemarchand comenta que O Livro da Cidade das Mulheres sofreu críticas por apresentar um “feminismo moderado”. No entanto, se pensarmos em termos utópicos, é preciso descolar a imagem de um mundo perfeito, apresentada no livro, de um imperativo moral, de um modelo a ser reproduzido. Se a utopia opera exatamente pelo seu fracasso, é nas entrelinhas, nos buracos do texto que restam espaços para a invenção de outros modos de viver. “A utopia é como uma formação do inconsciente. Aponta, não uma realidade apreensível, mas um princípio ético do dever de testemunhar e o compromisso com a transmissão” (Sousa, 2009, p.399).

 

Cristina de Pizán preocupou-se também com o destino de seu livro-testemunho. Ofereceu seu manuscrito ao Duque de Borgonha e o dedicou ao Duque de Berry, estimando que os primeiros destinatários da mudança de mentalidade sobre o papel feminino deviam ser os homens (Lemarchand, 2006). Parece-me que ela, imbuída de uma espera que é ativa e que “não suporta uma vida de cão, jogada de modo meramente passivo no devir, no intocado, ou mesmo no lastimavelmente reconhecido” (Bloch, 2005, p.14) lançou(se) em um movimento que persiste…

 

Mulheres na política não podem ser femininas demais, visto que não se associa feminilidade à liderança, mas também não podem ser masculinas demais, visto que masculinidade não é prerrogativa delas; esse nó cego exige que ocupem um espaço que não existe, que sejam uma coisa impossível para não serem uma coisa errada. Até onde consigo entender, ser mulher é estar constantemente numa condição errada. Pelo menos sob o patriarcado (Solnit, 2017, p.66).

Fotografia da série Maciel (1979), de Miguel Rio Branco.

 

 

Trabalho correspondente ao seminário Agulhas para desativar bombas: utopias artísticas e políticas da imagem realizado pelo Laboratório de Pesquisa em Psicanálise Arte e Política/UFRGS em dezembro de 2017

 

Notas
¹Centro de Referência para o Assessoramento e Educação em Redução de Danos da Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul (CRRD-ESP/SES/RS)

²Le livre de la Cité des Dames.

³Livre tradução da autora nesta e em todas as citações seguintes da mesma obra.

 

 

Referências

BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Vol 1. Tradução Nélio Schneider. Rio de Janeiro: EdUERJ: Contraponto, 2005.

DE PIZÁN, Cristina. La Ciudad de las Damas. Introdução, tradução, notas e bibliografia, Marie-José Lemarchand. Biblioteca Medieval VII. Madrid: Ediciones Siruela, 3ª ed., 2006.

LEMARCHAND, Marie-José. Introdução. In: DE PIZÁN, Cristina. La Ciudad de las Damas. Introdução, tradução, notas e bibliografia, Marie-José Lemarchand. Biblioteca Medieval VII. Madrid: Ediciones Siruela, 3ª ed., 2006.

SILVA, Alexander Meireles da. Utopia para quem? O desenvolvimento da literatura de utopia feminina. Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades, v. 6, n. 23, 2007.

SOLNIT, Rebecca. A Mãe de Todas as Perguntas: reflexões sobre os novos feminismos. Tradução Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

SOUSA, Edson Luiz André de. Psicanálise e a vocação iconoclasta das utopias. Morus-Utopia e Renascimento, v. 6, p. 397-404, 2009.