Panteras e Escorpiões: veneno e utopia. Agulha I. Edson Luiz André de Sousa

Tendo em vista as represálias ocorridas no final do ano passado a professores nas universidades do Brasil, que ferem a possibilidade da construção do pensamento livre , tentando nos encurralar nas máquinas de produção hegemônicas e mortíferas,  a plataforma Psicanalistas pela Democracia em parceria com o Laboratório de Pesquisa em Psicanálise Arte e Política / UFRGS, a partir de hoje estará compartilhando os trabalhos apresentados no seminário Agulhas para desativar bombas: utopias artísticas e políticas da imagem, realizado nos dias 15 e 16 de dezembro de 2017, de modo a dar a ver as vestes de um pensamento que resiste e insiste sobreviver.

“Avessos, ossos de uma história que revela sua fúria conservadora, o Brasil-bomba explodindo sempre do lado dos mais frágeis, estruturas de poder consumindo o que temos de mais precioso: nossa esperança. Nestas horas, precisamos recuperar nossa condição de pensar, de desejar de resistir, de reinventar novos futuros, bem distintos destes que querem nos impor. Agulhas para desativar bombas é mais um seminário que anualmente o LAPPAP (Laboratório de Pesquisa em Psicanálise Arte e Política/UFRGS) realiza para pensar a função das utopias e sua relação com a psicanálise e a arte. É também a conclusão da disciplina proposta no PPG Psicanálise: Clínica e Cultura, PPG Psicologia Social e PPG Artes Visuais / UFRGS.” (Edson Luiz Andre de Sousa)

Inciamos com o trabalho do professor Edson Luiz Andre de Sousa, Panteras e escorpiões: veneno e utopia .

 

Panteras e Escorpiões: veneno e utopia. 

Edson Luiz André de Sousa

 

 

Haroldo de Campos: nascemorre,1965

 

 

Em 11 de março de 1937 , Robert Musil proferiu uma conferência em Viena a convite da Werkbund  ( Associação Cultural e econômica de artistas, arquitetos, empresários e artesãos )  intitulada DA ESTUPIDEZ. Esta mesma conferência foi reapresentada  uma semana depois, no dia 17 de março.

Assim inicia sua fala:

Senhoras e Senhores:

“Quem quer que se decida a falar da estupidez corre hoje o risco de ser insultado: podem acusá-lo de pretensiosismo ou de querer perturbar o curso da evolução histórica. Eu próprio escrevi já há alguns anos: “Se a estupidez não se assemelhasse, a ponto de se confundir, com o progresso, o talento, a esperança ou o aperfeiçoamento, ninguém desejaria ser estúpido.”(MUSIL, 1994, p. 7)

A fala de Musil prossegue labiríntica, nos devorando por dentro, como um vírus silencioso, vírus oportunista que vai se infiltrando em nosso pensamento que (estupidamente seguro de si) parece sempre referir a estupidez no outro, a algo fora de seu território. A pergunta sobre o que podemos entender por estupidez, no entanto, vai ecoando em toda sua conferência,  tentando quebrar a arquitetura do medo ao pensamento, quando diante do pânico de nos reconhecermos implicados no mal que denunciamos,  eclipsamos e caímos doentes em algum canto. Assim reverenciamos nossa tristeza e nosso desânimo  como o troféu ridículo do bom perdedor que fica satisfeito com seu prêmio de consolação por estar participando do jogo. Mas aqui se impõe:  queremos continuar neste jogo? Também não se trata aqui, evidentemente, de sonhar com a lógica do pódio, do vencedor, esta outra estupidez que se afirma sempre com crueldade, pois nesta lógica do “pode um?” perdemos o que nos resta de humanidade (se é que esta palavra ainda guarda algum sentido),  na medida em que  este lugar só existe com a eliminação do semelhante.[i]  Este  lugar do (pode um?) é aquele  de quem captura a presa e a carrega entre os dentes para comê-la escondido, sozinho dentro do mato:  a imagem mais mesquinha do narcisismo feroz. Nem os animais fazem isto, pois ainda preservam este princípio de sobrevivência que é a partilha.

 

 

Po di um . Bispo do Rosário.

 

 

Bispo do Rosário já desmontou em imagem esta lógica em seu Podium.  Podemos ler ali uma pergunta, não dele, Bispo, mas de sua obra, do seu escrito, do seu ensaio imagético, do seu delírio, que talvez seja o que  ele tinha de mais vivo . Pode um? Mas neste seu trabalho tão eloquente é a LETRA que sustenta o ordenamento das posições de poder. A imagem composta letra a letra, sílaba a sílaba, cortada, aludindo a este princípio da leitura como composição de um campo de forças.

Manoel Ricardo de Lima em Acrobacias. Foto: Guilherme Lacerda

Manoel Ricardo de Lima insistiu tanto em suas Acrobacias[ii] que precisamos reinventar nosso vocabulário para dizer algo que possa fazer diferença. Sem uma invenção de linguagem não há movimento, só uma especularização de clichês, que se repetem como marionetes ridículas , brigando entre si mas submetida ao  controle da  mesma mão que as manipula. Esta é uma imagem que encontro em Rilke em seu texto de juventude, a Melodia das Coisas, escrito depois de sua estadia em Florença, onde foi conhecer de perto  a arte do renascimento.[iii]

O pó de um, o que resta, esta sobra como uma centelha de esperança, o que ainda não é, mas pode vir a ser… Princípio Esperança de Ernst Bloch que insiste tanto na condição da espera como potência ativa. Espera como posição de renúncia, não entrar neste jogo, nem um/nem outro, o neutro para evocar Maurice Blanchot como recusa da especularidade, mas como o exato sentido do que poderia vir a ser uma ideia de utopia. Neste cenário, Rilke lembra em seu Melodia das Coisas que precisamos pensar no segundo plano, às vezes tão esquecidos em nosso olhar,  o papel dos figurantes em silêncio ( como lembrava Manoel Ricardo de Lima em seu seminário) , mas  que se fazem presentes ali  de forma  ativa.. A potência do pulsional a espreita, o vulcão contido que prepara a erupção, pois não está ainda comprometido, ou capturado pelo script do texto pronto do atores que ali falam,,, nhenhenhém(  falar, falar, falar, em tupi nhe’eng significa falar).

“OU S A R E I  E U  P E R T U R B A R  O  U N I V E R S O?  D O  I          D ARE  D I S T U R B  T H E  U N I V E R S E ?” escreve T. S. Eliot em seu The love song of Alfred Prufrock. (ELIOT, 1981, p. 58) Esta é a pergunta que interpela a estupidez. Mas, voltemos à conferência de Musil:

“Mas a estupidez – é uma objeção que aqui se torna inevitável – longe de apaziguar sempre, pode mesmo irritar. Para sermos sucintos, digamos que ela excita habitualmente a impaciência, mas também, em circunstâncias extraordinárias, a crueldade; e os excessos odiosos da crueldade doentia que habitualmente se designa por sadismo mostra muitas vezes, no papel de vítimas, os imbecis. Isso resulta evidentemente do fato de eles serem para os seres cruéis as presas mais fáceis; mas parece estar igualmente associado ao fato de que a incapacidade de resistir que emana de toda a sua pessoa excita a imaginação como o odor do sangue o animal feroz, e arrastando-o para uma espécie de deserto onde a crueldade “vai muito longe” devido ao fato, ou quase ao fato, de não esbarrar em  quaisquer limites”..(MUSIL, 1994,p. 12)

Não é isto que estamos vivendo?  O que estamos vendo em nosso país desde o golpe que depôs Dilma Rousseff, senão o furor cruel arquitetado pela lógica dos poderosos que negociam nossas vidas, nosso futuro, nossa dignidade como quem se arvora o direito de nos dizer em que lógica devemos viver e até mesmo, ironicamente, nos apontar, qual o estilo de nossa revolta?  Sim, pois assustadoramente até as estratégias dos espaços de críticas são contaminados por este cenário  de horror.

Manoel Ricardo de Lima, em seu seminário lembrou a obra de Simone Weil, e a defesa que ela fazia de uma outra política do pensar, um pensar em outra política, uma politica que desmonte a política, uma política contra a política. [iv]                                                                                           Simone Weil. Imagem reproduzida da internet.

 

 

Como poderíamos minimamente operar em um desenho do contra-golpe? Como acionar a agulha para desativar bombas que inspirou este seminário? [v] Precisamos reconstruir espaços de revolta onde seja possível colocar em cena nossa recusa radical a estas lógicas de vida. Jacques Rancière é tão enfático em seus textos ao lembrar que o verdadeiro papel da política seria parar o poder, conter esta fúria sem limites que se referia Musil.  Portanto, é este o desafio proposto por Rancière, Como gerar dissenso diante do poder hegemônico?.[vi]  Aqui retorno a Platão que era categórico ao dizer que os melhores da política seriam aqueles que não queriam ser políticos.  Neste teatro da crueldade, que estamos vivendo em nosso país, universidades tem sido invadidas pela polícia em operações de guerra,  evidenciando uma lógica que está em curso de  desmonte da universidade pública.

Enquanto reitores de universidades são conduzidos coercitivamente sem mesmo terem sido notificados a comparecerem em juízo, o  chefe da polícia federal afirma que uma só mala de 500 mil reais não  parece ainda ser uma prova confiável. Afirmou ele: “ Uma única mala talvez  não desse toda a materialidade criminosa que a gente necessitaria para resolver se havia ou não crime, quem seria os participantes e se haveria ou não corrupção.” (sic)  Então , não precisamos ir mais longe nestes argumentos para entender a lógica em pauta; pauta esta  que tem nos violentado com pecs e mais pecs votadas a revelia da opinião popular, em um  congresso nacional  mais corrupto da história deste país: perdas de direitos trabalhistas, reforma da previdência  que penaliza os de sempre e que continua beneficiando a elite e o empresariado brasileiro com isenções fiscais milionárias, etc e  etc… mas como avançar nesta pergunta que propomos em nosso seminário : Que agulhas seriam estas? Voltemos ao Musil que na sequência de sua conferência nos diz:

“ A verdade é que a crueldade, tal como o amor, necessita de dois parceiros que se ajustem.” (MUSIL, 1994, p. 13)

Portanto, qualquer política que queira ser consequente neste jogo tem que buscar desesperadamente o desajuste das peças, a desmontagem da máquina, a recusa de funcionar como a máquina. Não sabemos por qual caminho, mas enfrentar a Escola de Tiranos como escreve Emil Cioran em seu Historia e Utopia  necessita novas disposições. Cioran é categórico ao evocar um povo que aceita tudo “mostram-se tão solícitos ante o espetáculo da queda que acabam se enternecendo com sua própria miséria” (CIORAN, 1994, p. 102) Neste ponto, Sigmund Freud é muito bem vindo ao lembrar que talvez a pior miséria seja ainda a psíquica.

E sobre miséria sempre é bom retornar a quem entende dela: Franz Kafka.

“Alguns negam a miséria apontando o sol, outros negam o sol apontando a miséria” (KAFKA, Diários 17/1/1920) [vii]

Talvez seja  esta a lógica do escorpião, um  corpo que nega  o sol, entregue à escravidão consentida. Escorpião como um ex-corpo, que se alimenta do próprio veneno que fabrica, o veneno que o faz girar em círculo tal qual um pião desgovernado. Um corpo que se nega a si mesmo, que se ausenta numa anestesia incapaz de pensar em qualquer ideia de utopia.  Utopia pensada aqui como um rasgar de mapas, uma recusa da geografia do poder que institui posições.

Girar, circare…. Perseguimos em nosso seminário a ideia do circare, perguntando-nos  como implodir a lógica da circulação capturada por uma ilusão de centro.  Como furar estes desenhos circulares, buscando a borda, o fora, buscando uma emancipação na língua que ainda não sabemos falar, nem escrever, nem pensar?  Seria isto que Manoel Ricardo de Lima insistiu tanto nos três dias do seu seminário: uma poesia contra a poesia, uma arte para desmontar a arte! Não precisamos de trilhos como o evocou Temer em seu discurso de posse. “colocar o Brasil nos trilhos”. Que trilhos? Precisamos de agulhas, ilhas minúsculas onde ainda possamos nos escutar, ler o que não está escrito, utopias artísticas que apostem em uma efetiva reinvenção da linguagem.

Começamos no seminário com a pantera do Rilke:

A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Augusto de Campos)

(No Jardindes Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

(RILKE, 2007, p. 56)

 

A aposta que fazemos aqui é nesta imagem que se instila na tensa paz dos músculos, uma imagem gota a gota que abre caminho por entre as grades, uma imagem  que mesmo  morrendo no coração, ainda assim é capaz de narrar sua morte, enfrentar sua morte, testemunhar sua morte.

Aqui sigo o principio de Mario Peixoto, autor do legendário Limite, filme inaugural e talvez um dos mais experimentais do cinema brasileiro, que insistia na ideia de que narrar o que não suportamos ver é abrir um espaço , que eu nomearia de desvio ético, uma fuga para a esperança, para as imagens ainda por sonhar,  enfrentando nossa covardia diante do aberto que tanto  tememos. O desafio é justamente furar nossa fobia do espaço que se protege do aberto:

Escreve ele no poema “Terra na Boca (Cangüera)’ . Cangüera em tupi significa  caveira.

 

Fugir!

Fugir para confins que a gente imaginou, um dia,

Em hora e aspecto;

Fugir ao desvario do solo,

De vontade própria

Antes que outros classifiquem, com as mãos, o nosso destino

(PEIXOTO, 2002, p. 95)

 

Talvez sejam estas as utopias que perseguimos ou que nos perseguem, a efetiva política da imagem, que se recusa ser capturada em uma classificação qualquer, a que ainda não tem lugar, a que escapa, a que ainda não imaginamos.

Poderemos ser surpreendidos ao descobrir que temos um Vesúvio em casa como escreve Emily Dickinson. A erupção contida da pantera do Rilke ainda destilando o veneno do eterno retorno do mesmo, o escorpião que nos faz girar em torno de um corpo que já não temos. Recuperar o corpo, sua dor e sua esperança para tomar posição. Uma geografia área[viii] por vir…

 

Os vulcões são na Sicília

E na América do Sul

Diz a minha geografia –

Vulcões mais perto daqui,

Encostas de lava que eu

Queira inclinar-me e subir –

Cratera que eu possa ver

Um Vesúvio em casa

Emily Dickinson (DICKINSON, 1979)

 

Imagem do filme Limite, de Mario Peixoto. Reprodução da internet.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

CIORAN, Emil. História e Utopia, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1994

DICKINSON, Emily, 80 poemas de Emily Dickinson, Trad. Jorge de Sena, Edições 70, Lisboa, 1979

ELIOT, Thomas Stearns, Poesia, Editora Nova Fronteira, 1981, trad. Ivan Junqueira

MUSIL, Robert. Da Estupidez.  Editora Relógio D’Agua, Lisboa, 1994

PEIXOTO, Mario. Poemas de Permeio com o mar, Aeroplano Editora, Rio de Janeiro, 2002.

RILKE, Rainer Maria. Coisas e Anjos de Rilke, Tradução Augusto de Campos, Editora Perspectiva, 2007

 

[i] Faço alusão aqui a um trabalho de Artur Bispo do Rosario, seu Pódio/Podium. Sobre este trabalho ver meu artigo “Um pódio de palavras”, Revista Ide ,são Paulo, Vol. 31, nº 47, 2008, pp. 94-97

[ii] Refiro-me ao Seminário de Manoel Ricardo de Lima “Acrobacias, Mundo e Politicas “ realizado em Porto Alegre de 12 a 14  de dezembro 2017 no PPG de Psicanalise: Clinica e Cultura da UFRGS.

[iii] Ver RILKE, Rainer Maria. A melodia das coisas, Estação Llberdade, São Paulo, 2011.

[iv] Ver o livro de Simone Weil, Pela supressão dos partidos políticos. EditoraÂyiné, Belo Horizonte, 2016

[v] Seminário Agulhas para desativar bombas – utopias artísticas e politica da imagem.- 15 e 16 de dezembro de 2017

[vi] Ver Jacques Rancière.  A partilha do sensível – estética e política, Editora 34, São Paulo, 2009

[vii] Esta passagem encontrei no belo ensaio de Marcio Seligman-Silva “Um afogado sonhando com salvação – a doutrina das portas em Franz Kafka

[viii] Geografia Aérea de Manoel Ricardo de Lima, Editora 7 letras, Rio de Janeiro, 2014