“De que falamos quando falamos de Populismo? Aproximações entre Ernesto Laclau e psicanálise” Por Patrícia Ferreira

Ernesto Laclau

Trabalho apresentado no evento De que falamos quando falamos de Populismo?, realizado no dia 23 de agosto de 2017 na PUC-RIO, pelo Departamento de Filosofia. Apresento aqui com algumas alterações.


O populismo pode ser considerado uma espécie de buzzword nos debates que circundam a academia e a política, seja no Brasil, seja no ‘velho continente’, de onde envio esse texto depois de acompanhar dois eventos simultâneos na última semana nos quais populismo apareceu todo o tempo: Os fins da democracia, que aconteceu em São Paulo entre os dias 07 e 09 de novembro e o The New Nationalism: The Rise of the Populist Right in the West, no último dia 08 de novembro na Birkbeck, University of London.

Tenho pesquisado o tema há algum tempo e a leitura que realizo é feita a partir do campo de pesquisa ao qual pertenço, que é o da psicanálise. Desse trajeto, afirmo que há um intermeio entre a teoria sobre o populismo de Ernesto Laclaui e a psicanálise. Essa relação leva ao interessante exercício de discutir a psicanálise mais explicitamente ou ousadamente com o campo político. Claro que isso não é algo inédito ou viabilizado por Laclau, porque desde Freud há essa conexão entre um campo e outro – seus ‘textos sociais’ como Totem e Tabu, o Futuro de uma ilusão, Psicologia das massas e análise do eu, Mal-estar na civilização, Por que a Guerra? ou Moisés e o Monoteísmo, são as provas mais concretas disso.

No entanto, tanto a partir de Freud como de Lacan parecem ter havido leituras de suas elaborações teóricas que deram margem para instaurar e sustentar uma desconfiança ‘de saída’ de movimentos e projetos coletivos. A teoria freudiana parece ter servido (e ainda servir) como base para que se disseminasse a ideia de que a grande chance de tais projetos seria a de que se caísse no totalitarismo, na qual a figura do líder ganha toda evidência. Outro aspecto ‘difundido’ é a falta de autonomia e discernimento das massas, que dá margem para a ideia de ‘massa de manobra’. No entanto, o que fica fora dessa cena é justamente o trabalho que Freud realiza de tentar escapar das teorias que antecedem a dele e que estão muito mais interessadas em descrever esse ‘comportamento’ das massas. O que Freud alcança é exatamente a compreensão de como e quais são os mecanismos componentes da massa. Ou, em outras palavras: como a constituição subjetiva se engendra às formações coletivas. Aí, entra em cena o social e o sujeito como indissociáveis, a referência ao Ideal de eu, o investimento libidinal, as identificações e idealizações, ou seja: o que vincula o sujeito ao coletivo, que reage com aquilo que é próprio à sua constituição. E é isso que é importante aqui e também relevante para o que o Laclau utiliza desse ponto.

Destacaria de Lacan seu combate veemente à ideia desse ‘Um totalizante’ e as considerações que ele realiza sobre as formas como a discursividade se arranja e, então, se delineia em estruturação aos modos de aparelhamento de gozo. É o que ele faz explicitamente no Seminário 17: O avesso da psicanálise, no estudo que fica conhecido como ‘teoria dos discursos’, do qual, gostaria de destacar a articulação que Lacan realiza entre os discursos e projetos coletivos, desde a União Soviética à maio de 1968. Com suas clássicas ironias e elaborações, Lacan acaba destacando dos ‘processos revolucionários’ uma relação estreita com um retorno ao mesmo lugar, com um Mestre e, ao explicar conceitualmente estas aproximações, enfatiza a relação disso com o gozo, o que, em certo sentido, legitima a ideia da impossibilidade de se ir mais adiante em coletivo. Ir além só estaria no horizonte se um coletivo se orientasse a partir do vazio.

O caminho de ‘demonstração’ que Lacan realiza não é muito diferente do trabalho de Freud no Psicologia das massas, no sentido de conceitualizar e tornarem explícitos os mecanismos e a constituição que sustentam, inclusive, relações discursivas. E dessa crítica ao ‘Um totalizante’ e à essa constituição, um dos contrapontos que Lacan propõe é o da criação de um dispositivo de experimentação em sua Escola que ele nomina de cartel. Apesar de que este dispositivo não irá servir como contraponto direto às formações de massa, uma vez que no ‘coletivo lacaniano’ a escala lógica é originalmente composta por 4 ou cinco membros e ‘mais-um’.

Não tenho intenção de realizar uma análise sobre organizações coletivas na psicanálise, mas destaco que esses pontos são essenciais para apresentar o que disso se mantém na proposta de Laclau sobre populismo e o que vai além da composição da psicanálise. Talvez seja possível pensar e admitir que o trabalho de Laclau vai um pouco mais adiante do legado da psicanálise ‘clássica’, uma vez que ele se arrisca a tentar sair desses lugares pré-estabelecidos, embora os tenha como ponto de partida. Além disso, Laclau realiza certo movimento de ‘recuperar’ o potencial político da psicanálise, da obra de Freud, de Lacan, que muitas vezes fica esquecido pelos próprios psicanalistas. É importante isso de demonstrar que os processos identificatórios são e estão na constituição do campo político, assim como nos processos de luta social.

A composição dos mecanismos que dão sustentação para a massa em Freud é o primeiro ponto que marca certo avanço na teoria de Laclau. Isso porque daqui se deriva e se diferencia massa e o que o Laclau vai entender como povo. A forma como Freud conceitua a massa, assim como Laclau entende povo, não se referem a um ‘julgamento moral’ ou à certa patologia social, mas muito mais a um derivado de mal-estar na sociedade. É por isso que é possível pensar em populismo tanto à direita quanto à esquerda, porque para o entendimento de Laclau, essa emergência da categoria de povo vai advir de demandas populares insatisfeitas.

Na última eleição nos Estados Unidos, por exemplo, alguns consideraram que tanto Donald Trump como Bernie Sanders eram populistas, cada um para um lado. O Trump estabeleceu uma cadeia de equivalência da insatisfação do povo branco em associação àqueles que estavam descontentes com a elite governante, com seus privilégios. E ele pode ser compreendido como representante do populismo de direita, ao reforçar a cisão entre ‘nós’ e ‘eles’, fazendo uso de certo populismo étnico, utilizando a pauta da imigração. Ao mesmo tempo, a campanha de Trump realizou críticas à políticas comerciais das elites que impactam diretamente os empregos nos Estados Unidos. Nesse sentido, Trump teve a função de aglutinador de demandas, servindo como ancoradouro de demandas e, com isso, fazendo existir uma ‘identidade popular’.

O movimento desencadeado por Bernie Sanders, por outro lado, apresentou demandas distintas das de Trump e não ter alcançado a vitória não diz que não tenha havido certa composição populista em sua campanha/candidatura. Porém, questionamos se a popularização da ‘fórmula’ do populismo, não abandona exatamente o que está no segredo de sua fórmula, i.e., que populismo não é feito, mas efeito.

A articulação populista que pode resultar em uma identidade popular é oriunda de insatisfação, que irá se articular em identificações e identidades. E, como em qualquer processo que inclui a lógica identificatória, é preciso a existência de denominador comum, pois sem isso não se constituem identidades populares e sem elas, as relações de equivalência se estabelecem somente em torno da solidariedade. Portanto, um denominador comum, um nome, é o que vai sustentar a lógica que colocará diferenças em cadeia equivalencial.

A lógica identificatória, dada no movimento de equivalência de demandas, serve a qualquer orientação política: seja direita, esquerda ou centro. O que importa não é a direção da ‘coisa’, mas a sua estruturação. Por exemplo, se um candidato ou se uma ideia conseguem articular as demandas populares, colocá-las em equivalência apesar de suas diferenças, a gente pode considerar que estamos diante de um significante populista. E, sim, esse significante, mesmo que seja encarnado por um líder, é elemento fundamental para o populismo.

Isso não quer dizer que se necessite de um ‘líder carismático’, pois são as demandas populares que são necessárias para que se possibilite que um líder ou ideia exerça a função de representação significanteii. É por isso que nomes como o ‘peronismo’ na Argentina, fazem sentido ainda que Perón esteja morto. E as demandas, para que a gente veja emergir a identidade coletiva, o ‘povo’, são entendidas por Laclau como efeitos contingentes com caráter anti-institucional, como se surgissem de um ‘furo’ no campo político-social ou, em analogia à psicanálise: como um sintoma. É por isso também que tem que a ver com certo mal-estar. Um exemplo disso seria o próprio contexto no qual emerge o populismo clássico, de acordo com Laclau, que é quando há uma resposta aos processos de industrialização, de urbanização ou de diferenças sociais na transição da sociedade tradicional à sociedade moderna – que aconteceu na América Latina especialmente entre as décadas de 1930 e 1940.

Trazendo para a atualidade, podemos pensar que o ciclo de lutas iniciado nos países árabes em 2011, que passa pelo Brasil em 2013 e se estende a Nuit Debout na França de 2016, apresenta algo que se assemelha a uma possibilidade de emergência de uma identidade popular, de fazer povo. Como percebeu Paolo Gerbaudo (2017), os ‘nomes’ de alguns desses movimentos traziam consigo a ideia de um povo comum – como no caso dos Indignados na Espanha, We are the 99% no Occupy Wall Street e Aganaktismenoi na Grécia. No caso do Brasil, no entanto, o que ocorre como desdobramento é o inverso disso, aparecendo o quadro de fragmentação político-social.

Vale esclarecer que populismo, assim como toma Laclau, não tem como ideia subjacente a produção de líder, governo, ou outra coisa resulte em um povo emancipado ou coisa que o valha. Assim como não intenta a existência de uma sociedade conciliada na qual as diferenças tenham sido incorporadas na lógica da equivalência. Não é disso que se trata, pois populismo não é projeto ideológico ou político. Ele é indiferente a isso, grupos ou classes específicos, embora o populismo esteja diretamente relacionado a representação. Laclau afirma que os laços de equivalência que permitem as identificações se dão por um processo de condensação ou metáfora em uma identidade popular.

A estratégia é semelhante a condensação presente nos sonhos, na qual uma imagem ou um significante não anunciam uma particularidade, mas uma pluralidade que se condensa e se engendra em uma cadeia significante. Isso se expressa por uma imagem, ou seja: por algo que representa alguma coisa. E, normalmente, como se sabe pela psicanálise, o conteúdo presente diz de algo que está fora da cena, que na clínica a gente pode tomar como uma manifestação inconsciente. Além disso, Freud enunciou no Interpretação dos sonhos que os sonhos manifestam os desejos. Em uma aproximação, poderíamos afirmar que a estratégia populista tende a fazer um movimento similar, pois a partir da condensação, ela tenta dar conta de demandas insatisfeitas. Claro que são demandas de ordens diversas na estratégia populista ou nos sonhos, mas a imagem é semelhante.

Além disso, e por fim, é importante ressaltar o caráter transitório que presente no populismo, na medida em que o ele é potencialmente possível justamente a partir da incapacidade ou impossibilidade de se fazer um todo, de que demandas sejam e estejam todas satisfeitas. Por isso, ele é transitório e dinâmico. E também, por essa razão, não existe O Populismo.

Nesse sentido, sugerir o ‘retorno’ do populismo ou tomá-lo como modelo a ser aplicado, deixa de fora a implicação histórica e social contingente a qualquer processo genuinamente populista, podendo cair na velha imagem do ‘líder carismático’ que leva a massa para onde quiser e como quiser. Há aqui, portanto, a confusão entre massa e povo, como se o populismo fosse alguma coisa necessariamente que viesse de cima para baixo, que pudesse ser imposto. Populismo emerge da discursividade, é da linguagem que se faz cadeia


Patrícia do Prado Ferreira é doutora em Psicologia Social pela PUC-SP e pós-doutoranda no Laboratório de Psicanálise e Sociedade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – USP, supervisionada por Miriam Debieux – bolsa FAPESP. Atualmente realiza estágio de pós-doutorado no King’s College London, com Paolo Gerbaudo – bolsa FAPESP. É pesquisadora do Laboratório de Psicanálise e Sociedade da USP, do Núcleo de Psicanálise e Política da PUC-SP e do Núcleo de Psicanálise e Sociedade da PUC-SP.


i Refiro-me aqui diretamente ao livro A razão populista (São Paulo, 2012).

ii Para leitura mais aprofundada de como esse movimento pode se realizer, sugiro o conceito de anarco-populismo desenvolvido por Paolo Gerbaudo em The mask and the flag (Londres, 2017).