Ocupação das escolas no Brasil: uma origem, a cadeira e outras dobras na ilha de papel* Lisiane Molina Leffa

Qual a medida de um espaço ideal? Essa pergunta me interroga o passo quando acompanho Rafael (Hitlodeu) comunicando os limites da Utopia. Enquanto anuncia a localização de suas vizinhanças, fica em suspenso seu lugar real.

Não apenas pela junção de duas palavras gregas que compõem a invenção de Morus (1997), como sabemos, a Utopia (1516) é um lugar que não existe na realidade. Ela insiste enquanto um pensamento, porque a dificuldade de localizá-la no espaço é a possibilidade de seguir em frente, na obra e no presente. Como?

Frente aos retrocessos atuais, um acontecimento que se revela potente imagem utópica é o movimento de ocupação das escolas no Brasil. Inspirados pelo movimento estudantil no Chile (2006) e na Argentina (2011), a Ocupação das Escolas no Brasil nasce de uma iniciativa de estudantes de São Paulo, que procuravam uma resposta ao projeto de reorganização escolar por ciclo imposto pelo governo Geraldo Alckmin. Tal iniciativa revelou uma diversidade de experiências, na medida em que os alunos, em suas diferentes escolas experimentavam novas formas sociais de luta. De um conflito local, o movimento se atualiza em passeatas pelos bairros e protestos nas regiões centrais, com o encontro de várias escolas, passando a se manifestar em trancamentos de avenidas até conseguir a renúncia do secretário de educação e o enfraquecimento da popularidade do governador. Como aponta Pablo Ortellado (2016, p. 13) “Essas novas relações são o que uma tradição autonomista chama de política pré-figurativa, a capacidade de forjar, no próprio processo de luta, as formas sociais a que se aspira, fazendo convergir meios e fins.

Em São Paulo (2017), encontro com um aluno secundarista, que em uma conversa informal me conta um pouco sobre o início do movimento. Nesta conversa, ele me sugere a leitura do livro Escolas de Luta (2016), oferecendo rastros para refletir sobre a dimensão política e inovadora deste movimento.  O livro narra e analisa com os estudantes o processo de mobilização de luta. Nesta leitura, ficam evidentes as respostas inventivas às situações inesperadas, sobretudo, pelos meios informais de comunicação, como o blog O Mal-Educado, que passou a disponibilizar uma cartilha sobre o que foi o movimento de ocupação das escolas no Chile.

O coletivo O Mal-Educado surgiu a partir de uma tentativa de registrar experiências de luta dos estudantes, anteriores ao movimento de 2015/2016, como as experiências da Poligremia (articulação entre grêmios/ 2010 e 2011)  e o trancamento de portões do pátio da escola José Vieira de Moraes, em 2009, como protesto contra a diretoria, que é possível acompanhar pelo artigo Registrar experiências de luta: o histórico d´O Mal-Educado (2016). A possibilidade de pouco a pouco registrar essas experiências através de um blog também inspirou algumas escolas que ao longo do processo das ocupações de 2015/2016 passaram a integrar a luta estudantil.

Os alunos associam o sentido de confluência de suas experiências de luta, seguindo as pistas do pensamento sobre o movimento operário

Os jovens relacionam este imbricamento de experiências, o sentido histórico e a identidade coletiva da luta secundarista ao pensamento do filósofo greco-francês Cornelius Castoriadis acerca do o movimento operário: “formular explicitamente, em cada oportunidade, o sentido do empreendimento revolucionário e da luta dos operários; […] manter viva a relação entre o passado e o futuro do movimento.”   (CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO. 2016, p. 64)

Benjamin (1992; 2012) problematiza a tradição da narrativa frente à decadência da tradição da experiência compartilhada, marcando que o que faz falta com a queda da tradição da narrativa é o sentido da transmissão da experiência presente nela, a continuidade da palavra transmitida de geração para geração, o seu reconhecimento e sua possibilidade de transformação.

Gagnebin (2009, p. 49), retomando a leitura de Benjamin , aponta que ele se ateve a questões não resolvidas e que ainda são nossas, questões que sua irresolução, precisamente, torna urgentes. A partir daí, Gagnebin (2009) procura traçar um fio comum entre os textos O Narrador e Experiência e Pobreza, dizendo que ao problematizar o tema da decadência da narrativa e da experiência compartilhada, nestes dois textos, é lançada a possibilidade de emergir o desejo e que o sentido de transmissão da experiência está na esfera de um ato político ao tornar transmissível uma história que pode ser transformada. Explana disto que a falta marcada por Benjamin não é uma falta ruim. Ela é uma falta potente.

Como sabemos, a falta abre uma nova relação com o tempo, algo que Freud nos mostrou com o conceito de inconsciente, ao propor pelo método psicanalítico que a fala pode ser uma forma do sujeito se revelar, trazendo para o presente fragmentos de seu passado esquecido. No seminário XI, Lacan (1985) propõe a reflexão do inconsciente como na dimensão da falta, do não realizado, o que possibilita a inscrição de algo novo, marca de experiência.

Na dimensão da falta que problematiza a transmissão da experiência, o movimento de Ocupação das Escolas no Brasil também revela sua dobra utópica e sua possibilidade de fazer marca, uma vez que configura o sentido da historização da experiência não como um relato que pretende esgotar os fatos ocorridos, e sim por vislumbrar a importância da origem como um fio condutor, a experiência anterior como um objeto a ser transformado. Como aponta Gagnebin (2013), a partir de um outro conceito benjaminiano, a noção de origem deve servir de base a uma historiografia regida por uma outra temporalidade que a de uma causalidade linear, exterior ao evento, de modo que viajamos à origem para permitir ao passado esquecido surgir de novo e ser assim resgatado no atual, como um rastro a se configurar em novo objeto na esteira de seu tempo.

Podemos imaginar a medida de um espaço ideal pela ocupação de seu objeto, pela relação da experiência que atualiza sua intensidade, tomando aqui como objeto a consistência política dos objetos usuais escolares.

Um objeto muito utilizado nas ações estudantis é a cadeira.

Do dicionário, cadeira é um substantivo feminino 1. peça de mobília composta de um assento individual e de um encosto, com ou sem braços; 2. Posição ou lugar de honra, de autoridade ou de dignidade numa corporação ou numa instituição política, científica, literária, eclesiástica, etc.

 Na ocupação das escolas, as cadeiras são objetos essenciais nas manifestações, redimensionando o espaço da rua e da sala de aula.

 

Aqui, suspender a cadeira de seu espaço real é imaginar a medida de um espaço ideal, qual seja a distância entre a sua história e o nosso ponto de interrogação, no movimento que opera um corte na repetição e atualiza o não lugar – como os rastros de Thomas Morus na sua ilha de papel –  para nos caber ainda uma imagem crítica.

E nós, como ocupamos nossas cadeiras de papel?  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Trabalho apresentado originalmente com o título Não: uma flexão na ilha de papel, no Seminário Ler Thomas Morus 501 Anos Depois, realizado em 01 e 02 de setembro de 2017 no Instituto de Psicologia da UFRGS, POA/RS, promovido pelo Laboratório de Pesquisa em Psicanálise Arte e Política (LAPPAP/UFRGS).

Lisiane Molina Leffa é psicóloga (PUCRS/2013), mestranda em psicanálise pelo programa de Psicanálise: Clínica e Cultura/ UFRGS. Trabalha junto com André Costa, Adriana Marino, Eduardo Hegenberg e Paulo César Endo na plataforma Psicanalistas pela Democracia.

 

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENJAMIN, Walter. (1928-1935) O Narrador. Reflexões sobre a obra de Nikolai Lesskov. In:__ Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política. Relógio D´Água Editores, 1992.

_________________. (1933)  Experiência e Pobreza. In:___ Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2012.

CAMPOS, Antonia J. M.; MEDEIROS, Jonas; RIBEIRO, Marcio M. Escolas de Luta. Coleção Baderna. São Paulo: Veneta, 2016.

__________. Registrar experiências de luta: o histórico d´O Mal-Educado. In:___. Escolas de Luta. Coleção Baderna. São Paulo: Veneta, 2016.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Memória, história, testemunho. In:__ .Lembrar escrever esquecer. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2009.

___________. Origem, Original, Tradução. In___ História e Narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectivas, 2013.

LACAN, Jacques. Seminário XI – Os Quatro Conceitos Fundamentais em Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

MORUS, Thomas. (1516). Utopia. Porto Alegre: L&PM, 1997.

ORTELLADO, Pablo. A Primeira Flor de Junho. In: CAMPOS, Antonia J. M.; MEDEIROS, Jonas; RIBEIRO, Marcio M.(Orgs.) Escolas de Luta. Coleção Baderna. São Paulo: Veneta, 2016.

 

 

REFERÊNCIAS VISUAIS

Imagens disponíveis na internet..https://www.google.com.br/search?q=ocupa%C3%A7%C3%A3o+das+escolas+no+brasil&rlz=1C1GGRV_enBR751BR751&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwik4vTrl9LWAhUHg5AKHUmHAWYQ_AUIDCgD&biw=1024&bih=662#imgrc=3ZySorLeWlamtM: Acesso em abril e agosto de 2017