“Dia 23 de maio de 2017” Por Laura Sahm Shdaior

Foto Alan White/Fotos Públicas

Dia 23 de maio de 2017, terça-feira seguinte ao domingo em que uma marcante ação da polícia foi feita na região conhecida como Cracolândia, intervenção que ocorreu em meio à proposta das internações compulsórias. Dia 23 de maio de 2017, terça feira em que a demolição de um prédio da região deixou três feridos, revelando explicitamente o processo de especulação imobiliária que rege o território. Nessa ocasião, os moradores alegaram não terem sido avisados da operação e reagiram contra os despejos. Dia 23 de maio, terça feira em que a polícia cercou pela primeira vez a Praça Princesa Isabel, local para onde havia se deslocado a concentração de usuários de crack (fluxo) após as intervenções truculentas do fatídico domingo.

23 de maio de 2017, 16h45

Celular tocando. Mensagens de horror. “Por favor, vem pra cá!” Eu nunca mais vou poder dormir em paz, pensei. “Vem que o bagulho vai estourar feio!”. Fui, suando antes mesmo de começar a correr. Com medo de ir, mas mais receio de não de estar. Ou seria culpa? Isso é coisa da Butler, pensei, a consciência sobre a tal da precariedade compartilhada. “A culpa parece ser um impulso de autopreservação primário” (BUTLER, 2016, p. 74). “Mano, vem logo, galera!” Repórteres, o fluxo e a polícia em volta. Muita polícia. “Chama os direitos humanos! O bagulho vai estourar!”. Helicópteros, o som do medo em nossas cabeças. Lembra quando a gente era feliz?, pensei. “Vem pra cá!” E foi meu corpo quem decidiu ir.

“Senhora, melhor não ir por aqui”, disse o guarda, com a certeza de que uma mulher branca de olhos azuis e casaco rosa só poderia estar ali desavisada. Não respondi e segui. Cheguei à cena, mas não pude vê-la: não é possível assistir aquilo do qual se faz parte. A polícia. O fluxo. Entre eles uns 10 de nós. Alguns negociando paz com os guardas, outros acolhendo a revolta dos usuários. Outros parados, sem saber o que fazer, mas sabendo que era pra estar lá. “Era?” Claro! “A gente tem que fazer frente ao poder dessa polícia! Isso aqui ta cheirando a nazismo!”, alguém falou. Paralelo real: “O fato de que os alemães encontraram tão pouca resistência por parte das polícias locais, foi em parte devido à poderosa posição que a polícia havia conquistado no decorrer dos anos em seu irrestrito e arbitrário domínio sobre os apátridas e os refugiados” (ARENDT, 2012, p. 393).

Fiquei olhando a cena, e então eu estava de fora, como se fosse possível deixar meu corpo lá, esquecer de mim enquanto fazia o que devia ser feito. Olhei as pessoas do fluxo, suas posturas, suas roupas, seus rostos. “Se criou uma condição completa de privação de direitos antes que o direito à vida fosse ameaçado” (ARENDT, 2012, p. 402), de modo que agora podia ser ameaçado livremente. “E o crack”, pensei, o crack que não é a real questão, mas que o Magrão deseja com tanta intensidade, que nem lembrou de olhar pro policial que o observava. Terceirizou a preocupação sobre seu corpo: o receio por sua vida era mais meu do que dele. O medo que ele não tinha, todo ele em mim. No meu corpo. Meu corpo: eu! Voltei a mim, e a distância entre nós e a polícia já era menor.

Eles chegaram perto, com seus uniformes e escudos. Uma barreira de ativistas de costas pro fluxo, de frente pra polícia, porque não se fica de costas pro inimigo. Uma barreira de ativistas para proteger o fluxo. Seus corpos ali na frente dificultavam a agressão, porque são corpos cujas vidas valem mais que aquelas que protegem. “Que vidas são consideradas vidas que merecem ser salvas e defendidas, e que vidas não o são? (…) Quais vidas são consideradas valiosas, quais vidas são enlutadas, e quais vidas são consideradas não passiveis de luto. Podemos pensar a guerra como algo que divide as populações entre aquelas pessoas por quem lamentamos e aquelas por quem não lamentamos. Uma vida não passível de luto é aquela cuja perda não é lamentada porque ela nunca foi vivida, isto é, nunca contou de verdade como vida. (…) A distribuição desigual do luto público é uma questão política de imensa importância” (BUTLER, 2016, p. 64).

Um passo da polícia pra frente, um passo nosso pra trás. Uma parada. Dois policiais me olhando, conversando de lado. Atrás de seus uniformes e de seus escudos, um disse e outro concordou: “Pior que os nóias são esses caras” e seus olhos me apontaram. “Evidentemente que a violação é algo que pode ocorrer e efetivamente ocorre com um corpo vulnerável (e não existem corpos invulneráveis), mas isso não quer dizer que a vulnerabilidade do corpo possa ser reduzida à possibilidade de violação física” (BUTLER, 2016, p. 58).

“Cuidado, o barranco!”, alguém avisou. Mais um passo deles pra frente, outros nossos pra trás. Encurralados em uma das esquinas da praça e assistidos pelos carros parados na Avenida. Ninguém parecia pensar em acudir. “Deixa a polícia fazer o trabalho dela” – quantas vezes ouvi essa frase? “Quanto mais extenso é o domínio arbitrário do decreto policial, mais difícil é para os Estados resistir à tentação de privar todos os cidadãos da condição legal e dominá-los com uma polícia onipotente” (ARENDT, 2012, p. 395).

Seguíamos encurralados, mas porque a multidão decide a despeito dos indivíduos que a constituem, já éramos todos um, correndo de volta pra casa. Policiais impediam que os carros passassem na Avenida Rio Branco. Só havia um caminho: voltar pra antiga cena de uso, nas visadas ruas da Porto Seguro. A massa que carregava cobertores e corria fugida, então corria de alegria: éramos todos um, correndo de volta pra casa. A doce ilusão durou pouco: uma vez atravessada, a rua deu lugar pra viaturas, que impuseram seu poder pela velocidade com que eram dirigidas. Uma delas atropelou Roberto. “Filha da puta!” Sirenes. “GJX 2026!” Alguém filmou a placa. “GJX 2026!” Correria, sirene, repórteres, helicópteros. Se for correr de costas é pra correr depressa. BOMBA. “Bomba?” B-O-M-B-A!

Meia volta e o grito da multidão. “Vai, vai, vai, vai!” Mas fiquei ali, entre a urgência de correr e a impossibilidade de fazer coisa alguma. Longe dos olhos da população civilizada que circula pela Avenida Rio Branco, a violência pode correr solta. “Não dou mais conta”, eu avisei. Um grupo na frente da polícia, outro grupo preso pra trás, junto com parte da vizinhança. Na TV do bar onde a população se abrigou, o Datena falava sobre a “operação” da polícia e a “invasão” dos usuários na rua Helvétia. “Quem invadiu foi eles!”, gritei. Existe um vocabulário que justificativa a guerra. “Mas o que que você sugere? Alguém tem que fazer alguma coisa, essa pouca vergonha não pode continuar!”. O que eu sugiro não dava tempo de explicar. De qualquer forma, “antes de sugerir uma maneira de pensar acerca da responsabilidade global nesses tempos de guerra, quero me distanciar de algumas formas equivocadas de abordar o problema. Aqueles, por exemplo, que fazem guerra em nome do bem comum, aqueles que matam em nome da democracia ou da segurança” (BUTLER, 2016, p. 62).

“Chega de ficar aqui, vamos dar a volta!”. Alguns quarteirões correndo. “Gente do céu! Porque isso?” De pensar que algumas pessoas vêem os policiais como heróis. Atravessamos o posto de gasolina. Os trabalhadores de lá – estariam eles assustados ou aliviados? Estariam eles pensando que a polícia pode se utilizar da mesma arbitrariedade com eles quando lhes for conveniente? Ou estariam eles certos de que o perigo eram os usuários e que a repressão era o caminho correto? “Quando uma população parece constituir uma ameaça direta à minha vida, seus integrantes não aparecem como “vidas”, mas como uma ameaça à vida (…) Aqueles que matamos não são completamente humanos, não estão de todo vivos, o que significa que não sentimos o mesmo horror e a mesma indignação diante da perda de suas vidas que sentimos com a perda de outras vidas que guardam uma semelhança nacional (…) com a nossa própria” (BUTLER, 2016, p. 69).

Passando o posto, estávamos de volta à cena: a polícia de um lado, o fluxo acuado de outro, no meio os 10 de nós e “os direitos humanos”, que são “invocados sempre que um indivíduo precisava de proteção contra a nova soberania do Estado e a nova arbitrariedade da sociedade” (ARENDT, 2012, p. 395). Um círculo com representantes de todos os lados. Papo vai, papo vem. “Calma!”, a palavra mais dita. Olhei em volta e percebi o Lelo, filmando tudo, de moletom e chinelo. Certamente não sabia que viria para a guerra hoje quando se vestiu pela manhã, pensei. Tampouco eu. “O que vestir pra ir pra guerra?”, me indaguei. Não sei, só sei que casaco rosa não foi das melhores opções. Um guarda interrompeu minha divagação para dizer que a polícia não havia encontrado armas, que por isso o fluxo poderia voltar para a Princesa Isabel. “Uma vez que ele constituía a anomalia não prevista na lei geral, era melhor que se convertesse na anomalia que ela previa: o criminoso” (ARENDT, 2012, p. 390). “Armas? Eles tão é querendo cansar a gente! Quem teve tempo de ver se tem arma aqui?”, disse o Negão. Verdade, mas poderia ser pior, melhor o fluxo voltar e pronto!

Um de nós – o Roberto, escolhido pelos “direitos humanos”, saiu do círculo com a missão de falar com o fluxo. Nisso o Pinguim me ofereceu uma bala da caixa que carregara até ali. Era pra vender, mas eu aceitei. Isso tudo sem nenhuma palavra sendo dita. Olhos nos olhos: existe amor durante a guerra. “Deixa o cara falar, pessoal!”, alguém do fluxo gritou, dando espaço pro Roberto dizer o que havia sido acordado. Ergueram-no por cima do lixo, assim dava pra ver melhor. Meia dúzia de palavras e o combinado estava firmado. A massa que carregava cobertores e corria fugida, então corria de alegria: éramos todos um, correndo de volta pra lá. “Vitória!”, alguém gritou. Eu ri. O Pingüim me abraçou, nisso quase cai na montanha de bosta do cavalo da polícia. “Cuidado!”, eu gritei. Ele desviou, e os dois riram. Depois de viver a guerra, o que é pisar numa bosta de cavalo? A banalidade do mal e os olhos nos olhos: existe amor durante a guerra.

Aquele mesmo caminho: cruzar de volta a Avenida Rio Branco. Dessa vez a polícia não ajuda. Já é noite. Nossos 10 corpos parando a rua. Os carros avançam, mas a Lourdes continuou lá, sozinha do outro lado da Avenida. Eu voltei pra buscá-la. Seus olhos cheios de lágrima: “Lá que é nosso lugar!”, lamentava-se ela, apontando para antiga cena de uso. Só dois quarteirões de distância, mas dois quarteirões fazem diferença. “Lá tem a tenda, lá o pessoal cuida da gente”, completou, se referindo às equipes de saúde e assistência. Lembrei porque distribuir água no fluxo era tão potente: o bebedouro há um quarteirão da cena de uso era longe demais pra alguns que não se levantavam nem para ir ao banheiro. “Eu sinto muito, Lourdes”, quis consolar, “mas é na Praça Princesa Isabel que vai ficar todo mundo, e nesse momento é melhor não ficar sozinha”. Ela concordou, e abraçadas atravessamos a Avenida, sedentas por um cigarro. “Cigarreiro!”, gritamos ao pisar na Praça.

Comemoramos, sem ainda acreditar no que tínhamos vivido, sem nem saber o que ainda viveríamos. Depois desse dia foi estranho acordar e o porteiro estar lá, o ônibus também; foi estranho ver o pessoal almoçando e rindo da vida, como se nada tivesse acontecido. Foi estranho ver o sol se por, a menina voltar pra casa falando no celular, o moço correr em volta da praça quando voltou do trabalho, a novela passar e o dia acabar impunemente. Meu amigo ligou pedindo um telefone, e nem sabia que precisava perguntar se estava tudo bem. “Será que foi um sonho?”, duvidei do pesadelo. Por alguns dias só consegui me sentir confortável estando com quem viveu aquilo comigo, ou com quem sabia dar peso para o que tinha sido vivido. Não precisa ficar falando da coisa. Podemos seguir apesar dela. Mas não podemos seguir ignorando-a. Que solidão sofrer um sofrimento não reconhecido, é como sofrer duas vezes. “Bela sacada”, pensei, “Se a violência justa ou justificada é praticada pelos Estados, e se a violência injustificada é praticada por atores não estatais ou por atores que se opõem aos Estados existentes, encontramos então uma maneira de explicar por que reagimos com horror a determinadas formas de violência e com uma espécie de aceitação, possivelmente até mesmo com justiça e triunfalismo, a outras” (BUTLER, 2016, p. 80).

Maio seguiu agitado com a ocupação da Secretaria de Direitos Humanos, a proibição dos despejos e da internação compulsória, o “Ato contra as ações higienistas na Cracolândia” que reuniu moradores, usuários, trabalhadores e militantes da região. Junho chegou cheio de reuniões e debates e mais reuniões e debates. Veio também com a doação de mais agasalhos e galões de água, tantos que mais nos atrapalharam do que ajudaram. A lua, os helicópteros, os contêineres, as madrugadas dormindo de tênis. A morte do Cadú na internação, a defensoria, a prisão da Stella Braga durante o exercício de seu ofício, o fluxo pra lá, o fluxo pra cá. Julho com jatos d’água e mortes cruéis. A ira de parte da população, ainda assim pequena. De novo a bela sacada: “Se o massacre promovido pelo Estado é justificado pela necessidade militar, então toda e qualquer espécie de massacre estatal pode ser justificada por essa norma” (BUTLER, 2016, p. 220).

Testemunhos, manifestações, relatos, e a tentativa de registrá-los e espalhá-los, porque a perda dos direitos humanos “envolve a perda da relevância da fala” (ARENDT, 2012, p. 404). Ou seja, fazer poema da coisa, porque podemos seguir apesar dela, mas não podemos seguir ignorando-a. “Afirmar que os poemas resistem a essa soberania não significa dizer que vão alterar o curso da guerra ou que, em última instância, vão se provar mais poderosos do que o poder militar do Estado. Mas sem dúvida têm conseqüências políticas: oriundos de cenários de subjugação extrema, são o testemunho de vidas obstinadas, vulneráveis, esmagadas, donas e não donas de si próprias, despojadas, enfurecidas e perspicazes. Como uma rede de comoções transitivas, os poemas- na sua criação e na sua disseminação- são atos críticos de resistência, interpretações insurgentes, atos incendiários que, de algum modo e inacreditavelmente, vivem através da violência à qual se opõem, mesmo que ainda não saibamos em que circunstâncias essas vidas sobreviverão” (BUTLER, 2016, p. 97).

A luta, o medo, o cansaço e as incertezas todas. Os olhos que transbordam precariedade olhando os olhos de quem compartilha dessa precariedade: existe amor durante a guerra.

 

Referências Bibliográficas:

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo: antissemitismo, imperialismo, totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.