No editorial ‘2017’ lembramos e chamamos a atenção para a tensão entre a verdade e a falsidade; a afirmação de princípios morais e estéticos e o descalabro ético; a palavra justa e o discurso velador. Falávamos da celeuma envolvendo o poeta e tradutor Augusto de Campos e o Jornal Folha de São Paulo ocorrido ano passado. Destacamos dessa vez outro episódio, ocorrido no ato de premiação do escritor Raduan Nassar na ocasião em que foi agraciado com o prêmio Luis de Camões. Essa passagem é citada também no texto recém publicado de Ana Costa no Psicanalistas pela Democracia.

O Brasil é privilegiado por ter Raduan Nassar. Um escritor que deu ao país o melhor da literatura. Aclamado dentro e fora do Brasil, Raduan é um cidadão que, do mesmo modo como se recusa a escrever um novo livro, a despeito das inúmeras demandas, solicitações e apelos, se recusa a se calar diante do maior golpe parlamentar, branco e cínico já sofrido no país.

Em todas as ocasiões em que Raduan é chamado, premiado, aclamado ele não perde a oportunidade para denunciar o que para ele parece algo muito maior, muito mais importante do que as premiações, entrevistas e os lugares luxuosos e artificiais concedidos às celebridades: o ataque sem tréguas à democracia brasileira que ocorre desde abril de 2016.

Por vezes Raduan parece deixar de lado a própria literatura e sua própria obra, cuja grandeza é inconteste, apenas para chamar a atenção para o descalabro pelo qual passa o Brasil atual.

Um autor acima da literatura, um autor acima das grandes obras, um escritor que será para sempre lembrado e imortalizado por suas posições como brasileiro, intelectual e cidadão, que lhe permitiram tornar-se escritor.

Em seu extremo oposto o atual Ministro da Cultura do Governo Federal, Roberto Freire, que toma o microfone, após a fala do homenageado, para se lambuzar, se ridicularizar e mostrar a cara do atual governo que se esbalda no poder retirado à força pela calúnia, pelo cinismo e pelo desrespeito à cultura nacional e ao cambaleante estado democrático de direito brasileiro.

Um retrato preciso do Brasil atual, uma lição que mais uma vez opõe o poeta e a máquina e demonstra um caminho no qual podem trilhar os grandes artistas, escritores e intelectuais do país. Retrato sintônico ao sentido de urgência no qual hoje vivemos.

A cada dia um direito a menos, a cada dia pedaços do país são patrimonializados por facções e grupos parlamentares e empresariais que se arranjam para a festa da partilha nefasta, de bens e direitos arrancados da sociedade brasileira. Mas também a cada dia mais vozes se levantam, se insurgem e são impossíveis de calar por aqueles que pretendendo solapar a voz de um Raduan Nassar, colocam em seu lugar práticas discursivas caquéticas, desinteligentes e impositivas.

Ao lado da obra e da fala de um Raduan, o discurso de um Roberto Freire, espinafrado pela plateia e ridicularizado aos olhos do mundo. Fica óbvio e mais simples o processo de decantação: de um lado as pérolas, de outro, os porcos.

Abaixo reproduzimos a breve fala de Raduan e o discurso do hoje ministro da Cultura Roberto Freire, que pretendeu ser a vedete do dia em lugar do homenageado, o escritor Raduan Nassar. Como comenta Miguel Nicolelis sobre o ocorrido durante o evento de premiação: Isso “ prova que o Brasil perdeu o rumo.”

Raduan Nassar:

 

Ministro: