“Nós, Daniel Blake – Cocos matam mais que tubarões” Por Paulo Endo

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Último ganhador da palma de ouro em Cannes, o filme de Ken Loach estreou nos cinemas de São Paulo. O filme revela não apenas a trajetória excepcional desse artista e diretor britânico com 80 anos de idade, cuja coerência artística e qualidade investigativa sem par na cinematografia atual são amplamente reconhecidas, mas os efeitos de suas obras que operam tal como nos ótimos romances históricos, nos quais literatura e pesquisa documental se articulam para interpretar e reatar trânsitos subjetivos e evidências consagradas pela pesquisa historiográfica.

Os filmes de Loach executam a uma só vez os detalhes infinitesimais das políticas de dominação a partir da evidência e do óbvio, a princípio visíveis a olhos nus, para alcançar o invisível.

O colapso europeu e o cadafalso para o qual estão sendo empurrados milhões de pessoas diariamente aparece como os efeitos do desmantelamento da cidadania em homens e mulheres nativos. Não apenas os estrangeiros, refugiados e apátridas. São os próprios ingleses, na Inglaterra, que sofrerão e que já estão imersos numa lógica medieval de perpetuação de desigualdades: só sobreviverão os mais fortes. Força, entretanto, tornara-se sinônimo não apenas de poder mercantil, financeiro, mas a capacidade que tal poder confere aos que flutuam acima dos riscos da lenta degradação subjetiva que acompanha a pobreza. O poder de jamais serem alcançados pelos imperativos da necessidade.

De outro lado, para os vulneráveis, a nacionalidade não protegerá ninguém. Nesse sentido o sistema de eliminação catalogada revela-se muito mais sutil e eficaz que fascismos e nazismos eliminacionistas, porque ele hoje atinge também os nacionais. Situação que nós e todos os povos colonizados conhecemos há séculos. Trata-se da implosão do conceito de cidadania na Europa e, com ele, o de nacionalidade.

Paul Laverty, roteirista do filme e amigo pessoal de Loach, elaborou o roteiro do filme indo a campo pesquisar bancos de emprego e centros de alimento espalhados pelo Reino Unido. Encontrou inúmeros Daniels.

Os grupos de extrema direita, constituídos pelas camadas médias que acreditaram na baboseira de que os estrangeiros são seus inimigos, competem pelos seus privilégios e roubam seu país e que, por isso, batem no peito reivindicando a Itália para os italianos, a América para os americanos, a França para os franceses e assim por diante estão sendo capturados em outras redes que destroem as possibilidades de assimilação e blindam o acesso às riquezas e aos privilégios ofertados pela sociedade dos super ricos. Tais neonacionalistas querem ignorar a razão pela qual super fortunas são possíveis e, desse modo, colocam a corda em seu próprio pescoço e apertam o laço.

Eles morrerão protegendo os ideais dos super-ricos, porque se consideram aspirantes das super-riquezas ou subalternos dos inalcançáveis bilionários; consequentemente demonizam e abrem fogo contra os superpobres. Os pobres, mais vulneráveis, frágeis e vítimas do que autores dos processos de espoliação. Neonacionalistas escolhem seus alvos por covardia e não por eficácia ou adequação.

Aos fracos- bem entendidos-, pobres, velhos, crianças, mulheres serão destinados à redução ao seu próprio corpo lançados à inanição lenta, à superexposição sexual, a humilhação cotidiana e ao escrutínio que definirá quem sobreviverá e quem perecerá.

Uma profusão de juízes, peritos, especialistas aos milhões fazem hoje o que faria corar um Eichmann, mas o fazem com a mesma convicção de preservar seus empregos, suas posses, seu pequeno prestígio e sua vida de consumidores. Essa vida de risco que pode lhes ser retirada a qualquer momento, lançando-os também à vala comum dos desempregados. Sua imunidade se deve à sua aceitação da própria degradação moral ao servirem de cães de guarda da preservação e agravamento das desigualdades.

O que mata mais? Cocos ou tubarões? Pergunta Daniel ao pequeno Dylan.

Mas Ken Loach também demonstra que a solidariedade tornou-se um ato patético entre pobres. Ela não sobreviverá como valor se não alcançar o estancamento da máquina que ridiculariza singularidades para indiferenciá-las como massa, devastando nomes e desintegrando histórias. Nisso, hoje, os cineastas imprescindíveis ainda constituem uma trincheira valiosa.

Ser solidário ao vizinho não bastará, precisamente porque apenas a solidariedade entre desiguais é o prêmio de consolação pago pelo próprio pobre a outros pobres e que pode culminar em resignação diante da calamidade. A solidariedade como resto, sobra: ‘Pelo menos nos resta a solidariedade.’

É o momento de projetarmos a solidariedade como meio capaz de instabilizar as estratégias monumentais de força e hierarquização artificial, que empurra pessoas comuns para tarefas de execução em massa que, sem percebermos, já ocorre entre nós e por nós é reproduzida.

A solidariedade é inquietante e potente se imiscuída nas práticas cotidianas em oposição à indiferença. Se isolada como prática permitida aos fracos, torna-se estéril como forma superior de consolidação da ética e instauradora de novas formas do viver.

Os lutos serão para nós experiências esclarecedoras? Instrumentos de compreensão de nossos destinos e faltas? Formas de elaboração das lógicas inconscientes às quais somos empurrados para reproduzirmos atrocidades cometidas contra nós mesmos? Ou apenas momentos privados de reconciliação com nossa resignação e auto complacência?

Quando, em entrevista dada ao jornal El País, Loach responde à pergunta do jornalista sobre como gostaria de ser lembrado, ele responde o seguinte:

“Como alguém que não se rendeu, acho. Não se render é uma coisa importante porque a luta continua. E as pessoas tendem a se render quando ficam mais velhas.”

Assistir, ver e rever Ken Loach, quem sabe, nos faça repensar nossas desistências e as consequências possíveis de nossas rendições e seus silêncios.