“Atravessar Desertos” Por Edson Luiz André de Sousa

Arte: Helio Oiticica

“Meu poema é minha faca”

Paul Celan

“O que é um rebelde? Um sujeito que diz NÃO, mas cuja recusa não implica renúncia”

Albert Camus

São muitos os desertos que temos que atravessar em nosso país. As duas mais recentes chacinas nos presídios de Manaus (Complexo Penitenciário Anisio Jobim) e Boa Vista (Penitenciária Agrícola de Monte Cristo) nos lançam violentamente no coração das trevas. Corpos mutilados, vítimas sobretudo da negligência do poder público, que pouco tem feito para enfrentar as condições precárias e desumanas da politica carcerária em nosso país. Definitivamente o que vimos nesses dois massacres é o fracasso do nosso laço social. Não há pacto social possível diante de cenas como essas. Embora com algumas particularidades diferentes, revivemos mais uma vez Carandiru. O que é mais chocante é que basta ouvir as primeiras declarações públicas do atual governo para perceber que a lógica da violência surge nos gabinetes dos políticos. Estarrecedor ouvir o Secretario Nacional da Juventude, Bruno Júlio¹, dizer “tinha que matar mais, tinha que fazer uma chacina por semana”.

Um deserto não se atravessa sozinho. Diante destes cenários que tentam nos inundar de paralisia e conformismo anestesiando o que temos de mais precioso, ou seja, nossa direito à revolta, nossa potência de desejar, nosso dever para com nossa imaginação, neste ponto é sempre importante evocar o que nos lembra Ernst Bloch, em sua trilogia Princípio Esperança, quando tenta discorrer sobre a função das utopias na história da humanidade:

“A consciência utópica quer enxergar bem longe, mas, no fundo, apenas para atravessar a escuridão bem próxima do instante que acabou de ser vivido, em que todo o DEVIR está à deriva e oculto de si mesmo. Em outras palavras, escreve ele, necessitamos de um telescópio mais potente, o da consciência utópica afiada, para atravessar justamente a proximidade mais imediata, assim como para atravessar o imediatismo mais imediato” (Bloch, 2005, p. 23)

Vamos então nos aproximar deste deserto e colocar o pé em seus contornos e esboçar uma travessia possível. Jorge Luis Borges em seu texto O deserto do Saara dá o tom de uma estratégia possível para este percurso. Escreve ele:

“A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide me inclinei, peguei um punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais longe e disse em voz baixa: estou modificando o Saara. O fato era mínimo, mas essas palavras pouco engenhosas eram exatas e pensei que havia sido necessária toda minha vida para que eu pudesse dizê-las. A memória daquele momento é uma das mais significativas de minha estada no Egito”.

Este punhado de areia nas mãos é uma resposta possível à provocação do poeta T.S. Eliot em seu clássico poema The Waste Land, onde nos lança a pergunta: Ousarei eu perturbar o universo? O desafio aqui diz respeito às estratégias possíveis de desfazer as formas totalitárias, abrindo rasgos nos territórios que se apresentam como imagens absolutas, prescritivas, definitivas. O punhado de areia nas mãos é uma metáfora potente do ato analítico, do ato criativo, do ato poético. Perturbar o universo neste sentido é escrever um nome próprio nos regulamentos anônimos, marcar uma diferença nas monocromias das prescrições, rasgar um mapa, para construir seu mapa, afirmar uma posição singular. De uma maneira bem simples o que vemos neste fragmento é um pensamento sobre a responsabilidade diante de um ato que faça diferença, ou seja, não renunciar a fundar um lugar de autoria, de protagonismo diante destes desertos da história. A passividade anda de mãos dadas com a tristeza que nos joga para fora da história como o bagaço da fruta, e neste ponto a tristeza é acreditar que há alguém que pensa por nós, que faz por nós e ainda pior que vive por nós. Não se trata aqui da ingenuidade de um otimismo estéril, arma potente destes mecanismos de controle que nos apresentam esperanças que Bloch nomeia como fraudulentas.

O que entendo por deserto??? Aqui vou inverter a definição do senso comum que tende a pensar Desertos como metáfora de um lugar onde faltam mapas, espaços que se abrem à deriva, ao incerto, ao vazio, sem contornos, sem medida, desconhecido, incerto etc. Penso desertos em outro sentido, ou seja, desertos como lugares totalitários onde as imagens se apresentam como imperativas, onde os caminhos já estão exaustivamente indicados, repleto de prescrições, regulamentos, onde não há espaço para o inédito, para o fora de lugar, para o desvio, para a deriva. Em outras palavras, penso Deserto como estes espaços onde não conseguimos fundar um lugar em que nos sentimos efetivamente autores, sujeitos, recuperando algum protagonismo em nossa história. Não é este o compromisso ético da prática psicanalítica?

Como cruzar por dentro de imagens que se impõem? Como recortar estes espaços de certezas e prescrições para fundar um lugar? Fatiar a totalidade em um ato de resistência. Todo ato de resistência supõe uma arte, lembra Didi-Huberman, e aqui a ideia de arte aparece como um dispositivo de ficcionalização, buscando as imagens ainda não disponíveis. É com ela que podemos refundar origens, inverter lógicas de funcionamento, recusar instruções, recuperar uma dimensão da incerteza e da imaginação. Por isso que a psicanálise está, ou deveria estar, tão perto da arte, pois a radicalidade do que chamamos de ATO (como corte destas superfícies contínuas) está sempre em pauta, nos ajudando a recuperar uma dimensão da incerteza e da imaginação. Lacan, como todos sabem, abre seu seminário do Ato analítico aproximando o ato analítico do ato poético

Vemos na imagem Lucio Fontana e seus cortes nas telas monocromáticas esforço de esburacamento e fundação de uma nova geografia. Michelangelo Pistoletto, artista italiano da arte povera em suas ações de redesenhar espelhos, quebra esta fascinação do duplo, injetando desordem na imagem e que me faz lembrar uma proposição lúcida de Herman Melville em seu Moby Dick, onde escreve em determinado momento

“Há certas empreitadas em que uma desordem cuidadosa é o método mais eficaz” (Melville, 2005).

Lucio Fontana

Michelangelo Pistoletto

Um dos trabalhos emblemáticos da arte brasileira contemporânea é sem dúvida a bandeira proposta por Hélio Oiticica, onde reproduz a imagem do bandido “cara de cavalo” morto com dezenas de tiros pela polícia do Rio de Janeiro. Trago esta cena como um paradigma do que temos vivido diariamente e lembrando o que disse Maria Rita Kehl no encontro do Clínicas do Testemunho em Porto Alegre², que a polícia brasileira continua matando e torturando hoje tanto quanto ou ainda mais do que na época da ditadura. Que mecanismos são estes que a sociedade brasileira ainda tolera e sustenta?

Abaixo da imagem do corpo estendido escreveu “Seja marginal, seja herói”. Essa frase acabou sendo um dos slogans mais conhecidos de sua obra, pois indica a posição clara deste artista ao refletir sobre tudo aquilo que está na margem, no fora de eixo evocando as histórias que ainda não foram lidas. Seu trabalho plástico vem a luz como uma espécie de aviso de incêndio no sentido mesmo do que Walter Benjamin escreve no texto com este mesmo título: “É preciso cortar a mecha que queima antes que a faísca chegue no dinamite” (Benjamin, 1988, p. 193). O ato de criação surge, neste contexto, como um grito utópico, indicando que pode haver, eventualmente, outro destino que não o da explosão mortífera. Contudo, estes avisos nem sempre são escutados e o fogo chega antes que a esperança.

Helio Oiticica

O que é mais catastrófico é quando não temos a coragem de ir ler o texto das cinzas. Sabemos que há mecanismos sociais e psíquicos potentes que tentam barrar este caminho e que precisam ser considerados se quisermos entender um pouco das razões da covardia e obscurantismo de um determinado tempo. Acredito ser este um caminho promissor para reagir contra a violência que nos paralisa. Vale aqui lembrar, por exemplo, as reflexões de Jean Nabert em seu ensaio sobre o mal:

Sem dúvida uma certa esterilização das lembranças, somado ao apagamento ou atenuação das reverberações emocionais de nossos atos, favoriza a produção de um momento onde o passado mais pesado parece se separar do eu” (Nabert, 2001, p. 138)

Neste ponto preciso vemos o quanto o campo da psicanálise desdobra sua vertente política, uma vez que o enunciado de Nabert retoma teses que encontramos quase literalmente em Sigmund Freud e em Karl Marx. Aqui os conceitos de recalque e alienação surgem como pequenos microscópios para o bacilo oportunista. Por sorte, a história não pode se esquivar totalmente dos efeitos do retorno do recalcado.

Será que esta bandeira do Oiticica já virou cinza? O que ainda nos resta?

A única resposta possível talvez seja a de Pierre Naville e que se tornou célebre na pluma de Walter Benjamin. Segundo eles, nossa missão seria a de organizar o pessimismo. Walter Benjamin é explícito ao dizer que organizar o pessimismo significa descobrir um espaço de imagens no campo da conduta política (política da imagem). É curioso que o texto de Naville,  A revolução e os intelectuais, escrito no final dos anos vinte, vai justamente desenhar o panorama de violência e obscurantismo de uma Europa marcada pela tirania staliana e ascensão do nazismo. A questão disparadora do texto, contudo, é uma defesa feroz do surrealismo contra todas as críticas a esta revolução artística. O texto de Naville é de uma atualidade impressionante.

Naville defende a ideia de um pessimismo responsável e consequente indicando que a desesperança pode cumprir uma função importante no cenário político. Faz uma certa crítica à esperança ingênua associada, segundo ele, aos aspectos medíocres de uma época. Neste sentido, podemos dizer que Naville propõe um pessimismo ativo e que precisa encontrar seu prumo. “É preciso organizar o pessimismo, ou melhor, já que não se trata de submeter-se a um chamado, é preciso deixar que ele se organize” (Naville, 1975, p.117). O desafio colocado em cena seria o da necessária resistência ao que ele nomeia como tirania do futuro. Contudo, a questão que fica é justamente de saber como é possível injetar potência utópica na desesperança. O caminho não é simples mas, certamente, a única saída é poder narrar e testemunhar ao mundo este afeto. Em outras palavras, verter em linguagem o que experienciamos. Assim, algumas imagens potentes talvez possam surgir ajudando a ver e entender melhor o que vivemos. Charlotte Beradt, por exemplo, entre 1933 e 1939, recolheu inúmeros sonhos de angústias de centenas de pessoas que, como ela, eram acossadas todas as noites por fortes pesadelos. Estes textos constituem, segundo Didi-Huberman, um documento psíquico do totalitarismo, do terror político, “um sismógrafo íntimo da história política do III Reich” (Didi-Huberman, 2009, p. 117). Aqui temos uma indicação preciosa de um pessimismo que não silencia e que reage à catástrofe do continuum da história. Pessimismos, portanto, inquietos, críticos, criativos. Como diz Naville:

“vemos que este pessimismo não é a fadiga, e não é tampouco o abandono, longe disto… O desespero é uma paixão virulenta. Ele se nutre de desejos dilatados e profundos. Ele coloca à prova a paciência.” (Naville, 1975, p. 113)

O tema da Bienal de São Paulo em 2016 foi potente embora não possa dizer o mesmo da mostra: A INCERTEZA VIVA. A atualidade do tema adquire ainda mais força quando um dito vice-presidente com um sobrenome sugestivo ao assumir ilegitimamente a presidência de nosso país disse em alto e bom tom no seu primeiro pronunciamento em rede nacional:

“O momento é de esperança e de retomada de confiança no Brasil. A incerteza chegou ao fim. É hora de unir o país e colocar os interesses nacionais acima dos interesses de grupos. Essa é a nossa bandeira. É preciso recolocar o Brasil nos trilhos. O presente e o futuro nos desafiam. Não podemos olhar para a frente com os olhos do passado.”

O que ele está dizendo: esqueçam o passado e, como sabemos, esquecer o passado é se submeter à sua lógica de repetição, de nunca sairmos deste bafo do porão da história. Este é o deserto de alguém que se arvora ter a certeza, nos impor sua certeza, nos colocar em seus trilhos. Nestas horas sempre me lembro de Estamira (filme de Marcos Prado) que no meio do lixão do aterro sanitário do Jardim Gramacho pensava a lógica do poder com tanta lucidez que a considero um dos testemunhos mais contundentes deste tempos: falava do “trocadilho”, dos espertos ao contrário, estratégias de submeter os outros às suas lógicas de poder e certeza. Com que autoridade, indignação, consistência conduz sua fala! Esquecer o passado é anular o julgamento do Carandiru, um verdadeiro escândalo e que recentemente motivou uma intervenção do artista Nuno Ramos em São Paulo. Convidou 24 pessoas para uma performance que durou 24 horas onde cada convidado ficou lendo o nome dos 111 presos assassinados durante uma hora.

Esperávamos que um secretário nacional da juventude pudesse dizer que seria importante uma performance como esta por semana.

Em 2016 comemoramos 500 anos da publicação da Utopia de Tomas Morus. Este texto que fundamentalmente é uma ilha de papel, uma ficção que nos interroga sobre o que ainda podemos sonhar, portanto, algo muito próximo do que a prática psicanalítica abre como possibilidade, ou seja, recortar os mapas que herdamos, lê-los minimamente para poder redesenhá-los. Não é tarefa fácil, mas cada vez mais necessária, e lembro aqui uma passagem do texto de Morus que deveríamos ter sempre perto de nós:

“não renunciamos a salvar o navio na tempestade só porque não saberíamos impedir o vento de soprar” (Morus, 1997, p. 57).

Não seria este um dos princípios da ética da psicanálise?

NOTAS

1  Bruno Julio é Presidente da Juventude Nacional do PMDB. Esta declaração o obrigou a pedir demissão do cargo que ocupava.

Encontro do seminário Clínicas do Testemunho no Centro Cultural Érico Veríssimo em Porto Alegre em 28 de outubro de 2016.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENJAMIN, Walter. Sens Unique, Les Lettres Nouvelles/Maurice Nadeau, Paris, 1988

BLOCH, Ernst. O principio esperança, , Contraponto, Rio de Janeiro 2005

DIDI-HUBERMAN, Georges. Survivance des lucioles. Editions de Minuit, Paris, 2009

MELVILLE, Herman. Moby Dick , Cossac Naify, São Paulo 2008.

MORUS, TOMAS. A Utopia, L&PM, Porto Alegre, 1997

NABERT, Jean. Essai sur le mal, Cerf, Paris, 2001

NAVILLE, Pierre. La revolution et les intellectuels. Gallimard, Paris, 1975

Versão modificada e ampliada da conferência apresentada no Seminário “Mal-estar em tempos sombrios – ética e testemunho”, promovido pela Associação Psicanalítica de Porto Alegre.