“Belo Monte: etnocídio, violência e sacrifício” Por Maíra Brum Rieck

Foto: Lilo Clareto/Arquivo Pessoal

O Estado proíbe ao indivíduo a prática do mal, não porque deseja aboli-la, mas porque deseja monopolizá-la (…) Um estado beligerante permite-se todos os malefícios, todos os atos de violência que desgraçariam o indivíduo. Emprega contra o inimigo não apenas as ruses de guerreaceitas, como também a mentira deliberada e a fraude – e isso a um ponto que parece ultrapassar esse emprego em guerras anteriores. O Estado exige o grau máximo de obediência e de sacrifício de seus cidadãos; ao mesmo tempo, porém, trata-os como crianças, mediante um excesso de sigilo e uma censura quanto a notícias e expressões de opinião, que deixa os espíritos daqueles, cujos intelectos ele assim suprime, sem defesa contra toda mudança desfavorável dos eventos e todo boato sinistro. Exime-se das garantias e tratados que o vinculam a outros Estados, e confessa desavergonhadamente sua própria capacidade e sede de poder, que o cidadão tem então de sancionar em nome do patriotismo” (FREUD, 1915, p. 289).

Contexto

João era pescador, era ribeirinho, João era. João era um homem. João está vivo: o coração bate, a cabeça pensa. Mas o homem dentro de João morreu. Ele sabe disso. Ele fala disso. João grita.

Quando João ainda era um homem, ele navegava pelo rio Xingu para levar para a cidade de Altamira os peixes da ilha onde vivia com sua mulher, Raimunda. Levou a vida toda para encontrar o que sempre buscou: uma casa, um lar. Encontrou o lar numa casa de palafita nas bordas da floresta amazônica: ali pescava, ali plantava. Na cidade, a família tinha uma outra casa, onde João passava parte da semana vendendo o peixe pescado.

Nunca quiseram sair dali, nunca quiseram mudar de vida. Não colocaram placa de vende na casa. Mesmo assim, descobriram que nenhuma de suas casas eram suas de fato: deveriam sair dali. Alguém, um dia, tal qual uma divindade, fez um círculo num mapa e resolveu “remover tudo e todos que viviam ali. O “progresso” tinha chegado à selva, todos ali seriam salvos e civilizados pela obra “grandiosa” que traria o “desenvolvimento” àquelas terras virgens e “vazias” da Amazônia. “Progresso”, “desenvolvimento”, “obra grandiosa”. Tal qual nas grandes navegações, o homem civilizado veio botar ordem nessa baderna chamada natureza e escravizar estes seres tão parecidos com eles próprios, mas sem almas, seres não humanos. E, tal qual 500 anos atrás, não há espaço para outra forma de viver a não ser a hegemônica, a tal forma “civilizada”. Vista ainda como terra virgem a ser desbravada, estuprada, devastada, a natureza, os indígenas, os ribeirinhos – que são os ninguéns que insistem em ali viver – seriam todos – finalmente – civilizados o suficiente para se transformarem em evoluídos pobres nas periferias das cidades. Agora, sim, incluídos, poderíamos chamá-los de excluídos. Finalmente, fariam parte do nosso “todo” civilizatório. Eis o “desenvolvimento da civilização”, tal qual 500 anos atrás: para não ser destruído, aniquilado, deve ser absorvido pela cultura dominante. Do contrário, são estrangeiros e, estrangeiros, como nos ensina Freud, são percebidos como inimigos. Inimigos não se inserem no mandamento “Amarás ao próximo como a ti mesmo”. Inimigos/estrangeiros não formam fratria ou relações amorosas: ao contrário, fratria se transforma em escravidão, amor e família se converte em estupro.

O tal “desenvolvimento” aqui se chama hidrelétrica de Belo Monte, e foi construída em cima das casas, do rio, dos peixes, dos animais, e da queima da preciosa madeira da Amazônia. É situada na cidade de Altamira no Pará, barragem que corta o rio Xingu ao meio, inundando um lado e secando o outro. Um processo não democrático que se assemelha aos regimes totalitários, onde não há negociações.

Freud ((1930)1996, p. 101) nos fala que “a vida humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e que permanece unida contra todos os indivíduos isolados. O poder dessa comunidade é então estabelecido como ‘direito’, em oposição ao poder do indivíduo, condenado como ‘força bruta’. A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização.” Aqui Freud coloca a Justiça como o elo fundamental, a ética, o valor primeiro que estabelece as bases culturais da civilização. Nesta frase, também poderíamos ler que em nome de um bem maior, alguns seriam prejudicados. E é exatamente esse o argumento que se usa nas grandes construções. No entanto, o que vemos, e como o próprio Freud escreve ao longo do mesmo texto, a civilização acaba sendo aquela que se apropria da barbárie, que age para além das leis e que cria as condições para a destruição dos homens e da própria civilização. E o bem maior é sempre o bem dos que detém o poder e que podem decidir quais são os homens mais humanos que os outros.

Quando um Estado democrático age como um Estado totalitário, acaba sendo ele próprio o destruidor do tecido social que amarra as leis, a ética, a moral, o direito. Se é o ideal de justiça que cria a ideia de civilização, o que ocorre quando o próprio órgão regulador das leis, o Estado, se transforma no motor da injustiça? O que ocorre aos indivíduos que vivem em um sistema corrupto ou violador? Qual a responsabilidade desse Estado sobre as doenças e mortes que perpetua quando é o próprio Estado que desfaz as amarras civilizatórias em nome, ironicamente, da civilização?

João e o começo de sua morte

Como disse anteriormente, João e sua família estavam prestes a ter suas duas casas inundadas e perdidas. Uma indenização lhes era de direito. Momento delicado que ia definir o resto de suas vidas. Seu destino estava em jogo: viveriam bem? Se transformariam em pobres? Como iriam viver a partir de agora? Poderiam continuar a ser ribeirinhos? Seu modo de vida seria possível? Teriam que viver exclusivamente da cidade? Se sim, como analfabetos com mais de 60 anos acostumados a viver da planta e da pesca poderiam começar a viver no meio urbano?

Tentaram negociar com a Norte Energia – concessionária responsável pela obra – o valor da indenização pela desapropriação da casa da ilha. Quando chegaram lá, descobriram que não havia qualquer possibilidade de negociação. A casa da ilha foi considerada uma “casa de pobre” (palavras do negociador), por ser de palafita, e a indenização seria o equivalente ao que ganhavam em três meses de trabalho. O conceito de casa aqui é o da concessionária. Exclusivamente. Casa para João, é o rio, as árvores, as plantas. O conceito de quem está no poder é o que vale, o outro não tem qualquer valor. Ou seja, perderiam a casa, o trabalho e o modo de vida que conheciam. Da casa da cidade, receberam a quantia suficiente para construir uma nova casa, também na cidade. A casa nova hoje está em construção na periferia de Altamira, mas a família de João perdeu sua fonte de renda. Vão poder terminar de construir a nova casa, mas não terão mais trabalho e as possibilidades de encontrar emprego são praticamente impossíveis.

Quando João recebeu essa notícia, percebeu com uma lucidez cegante que tinha perdido tudo. Percebeu que já estava muito velho e fraco para reconstruir tudo, que era analfabeto e que a vida que ele conhecia, literalmente, ia deixar de existir. Estava presenciando uma espécie de fim do mundo, e não teria mais como se reerguer. Sentiu-se um nada. Sem direitos. Um fora da sociedade, sem país, sem humanidade. Diz que deixou de ser brasileiro ali, naquela sala, com as palavras do advogado que lhe transmitia o decreto de sua futura miséria. Perdeu as referências que diziam quem ele era. João quis matar o mensageiro. Não suportou ver alguém lhe dizendo que sua vida estava destruída de uma forma tão burocratizada. Quis matar aquele que anunciava o fim de um sonho de uma vida inteira. Levantou-se da cadeira para fazê-lo e suas pernas falharam. Caiu. Não conseguiu mais andar. Ficou mudo, a voz se desfez em sua garganta. O desejo de matar era tão forte quanto o desejo de viver. A paralisia veio impedir seu sacrifício. João diz que se ele matasse, poderia fazer diferença, seu sacrifício iria salvar outras vítimas de Belo Monte. Ao mesmo tempo, seu corpo, sua paralisia o impediu de transformar-se em assassino. O excesso de lucidez fez com que João entendesse que não tinha mais saída.

Sabemos que para existir temos duas operações básicas para fazer: a primeira é se sentir si mesmo no corpo próprio, fazer próprio o corpo próprio; a segunda é criar um lugar para si, uma ideia de Eu no mundo, no corpo social. Para que a segunda operação ocorra, é necessário uma inserção na cultura. As leis, a moral, a língua. Precisamos fazer parte de um laço social. Quando esse laço se rompe, o Eu do sujeito se perde junto. Não há sujeito sem relação com o laço ao qual está inserido. O sujeito fica então reduzido ao corpo.

Fazendo parte desse laço simbólico, acreditamos que temos alguns direitos, que temos alguma proteção e vivemos na ilusão de que se cumprirmos todas as regras e não incomodarmos muito ninguém, o mundo não vai nos esmagar. É claro que isso é uma ilusão, mas uma ilusão necessária. Sem ela, deixamos de fazer parte da sociedade e os excessos se tornam possíveis. E ninguém pode viver banhado nesse excesso. Mas João parece viver. Num excesso cegante de lucidez, João sabe que foi reduzido a um inseto.

Quando um Estado passa a se comportar acima da lei, ele se torna absoluto, totalitário. Um sistema totalitário destrói a capacidade de um cidadão ser um sujeito. No caso de João, ele tinha um lugar e determinados direitos. O sonho de sua vida era construir uma casa, sentir-se seguro. Encontrar um lugar para si e para sua família. Levou metade de sua vida para encontrar seu lugar no mundo. Encontrou na ilha, no Xingu, na profissão de pescador, como um ribeirinho. Quando alcançou seu sonho, foi informado que teria que abandona-lo. E, mais que isso, que estava fadado a morrer na miséria. E mais: sua aniquilaçãoera travestido como a chegada do desenvolvimento.

Quando recebeu, pela primeira vez, a notícia da perda da casa, não compreendeu o que isso significava. Ficou triste, não queria sair, mas aceitou, desde que ganhasse uma remuneração suficiente para recomeçar. Pensou que talvez pudesse encontrar outra ilha, uma que não fosse atingida pela barragem. Essa possibilidade era suportável para ele, já que, até aqui, as coisas pareciam estar dentro da lei. Foi quando percebeu que não havia lei, que ele era apenas um empecilho, uma peça do tabuleiro a ser descartada, e que, além disso, não teria como recomeçar a vida, que João caiu. Caiu literalmente e metaforicamente. Caiu. O laço social que o sustentava se rompeu. Foi uma espécie de morte simbólica. João perdeu seu lugar no mundo. Não havia mais ilusões. Como ele diz, não é mais brasileiro, não tem mais pátria, não tem mais lugar no mundo. O que lhe resta é seu corpo, o corpo com o seu Eu despedaçado, o corpo que falha e é o único resquício de humanidade que restou.

João parece viver numa obra de Kafka. Quando descobriu-se tratado como um inseto, seu corpo se metamorfoseou: suas pernas pararam de funcionar, sua garganta fechou e seu corpo começou a inchar. Inchou todo. Virou um balão. Ficou assim por dias a fio. Pifou.

Quando perdemos nosso lugar no mundo e a possibilidade de futuro, de ilusão, de metáfora, o que resta é a metamorfose.

O segundo tempo da morte

Raimunda levou João para Belém para tentar descobrir o que tinha ocorrido ao marido. A psicóloga que o atendeu foi categórica: surto psicótico. Diagnóstico maldito, sem contexto, sem história. João perde tudo: na reunião com a Norte Energia, perdera seu lugar no social; agora com a psicóloga, perdera seu lugar na família, tornou-se um louco. Tem vontade de matar, não o faz e é considerado louco. Quem é louco? Para a família de João, João é fraco e enlouqueceu. João me diz que não é fraco e conta o dia em que ficou quatro dias sem comer e foi trabalhar de estivador. Desmaiou na primeira hora de trabalho, mas diz, com orgulho, que não pediu comida ou dinheiro pra ninguém. Aguentou. O diagnóstico expatriou definitivamente João da terra dos homens. Validou, num segundo tempo, a violência sofrida no escritório da Norte Energia. João torna-se um apátrida: sem terra, sem lugar e, agora, sem a palavra válida do mundo dos normais, dos sãos.

João caminha somente dentro de casa. Quando tenta sair, suas pernas falham. A voz voltou. Ele grita e xinga. Quer matar todo mundo que é da Norte Energia. Tem pesadelos todos os dias. O sonho é praticamente o mesmo. Sonha que está perdido na selva sem saber para onde ir. Fica cego. Sente-se sem saída. Desperta desesperado. Desperta, mas não acorda. Quando desperta, o pesadelo não acabou. Ele vive o pesadelo, vive no pesadelo. Não consegue sair da cegueira do excesso de lucidez. Quando desperta, os olhos funcionam, mas continua sentindo-se cego. Diz que não sabe como dar sentido para sua vida. Diz que perdeu tudo, a vida, o futuro, a direção. A cegueira é a falta de futuro, são olhos que não sabem mais para onde ir, ficou preso num instante onde se sentiu desumanizado. Foi traído, sente que não faz parte da sociedade humana. Diz que não tem mais país, sente que a vida acabou. Perdeu todas as referências e o único sentido que vê é no sacrifício.

Com o sacrifício, reconstituiria uma lei mínima, organizadora. Com o seu crime-sacrifício, aquele que não conseguiu concretizar porque suas pernas falharam, reconstituiria a lei simbólica perdida. A seu ver, são duas as possibilidades de sacrifício: a primeira opção seria matar aqueles que destruíram sua vida, e, nesse caso, perderia sua vida, iria preso, mas talvez pudesse salvar os outros que estão na mesma situação que a sua. Salvando os outros, poderia reconstruir uma lei simbólica, a lei perdida, poderia refundar a pátria destruída. A segunda opção seria se matar juntamente com toda a sua família, atearia fogo em si mesmo e em todos os que ama, no lugar que ama e que perdeu: a ilha onde ficava sua casa e que já fora incendiada pela empresa. João só vê sentido no sacrifício, na morte, não há mais vida possível para si. Sente-se um morto vivo. Parece querer que seu corpo vivo se una com seu Eu morto. Para ele, na morte sacrificial reuniria corpo e mente separados, e reestabeleceria a ordem do mundo.

Além das pernas que falharam, João perdeu, temporariamente, a voz. Não encontrou palavras para dizer o que lhe acontecia. Não há palavras para descrever quando se é arrancado da sociedade humana. O que resta é o silêncio.Como um morto vivo, vive no além morte. Como Antígona – condenada à morte em vida por questionar as leis injustas de Creonte – João não vê saída para além do sacrifício.

Quando volta a falar, ninguém consegue entendê-lo. É como se ficasse num entre-mundos, onde o que viveu de mais forte é intransmissível. É como se sua existência estivesse atrelada ao trauma,e todo o resto da vida não tivesse mais valor de verdade. O terrível da experiência traumática, que coloca a transmissão como impossível, faz com que o trauma em si pareça a ele como a única verdade e toda a ficção de sua existência passa a ter valor não mais de ficção, mas de mentira. A ilusão necessária que faz com que o sujeito se situe no mundo desaparece e o sujeito descobre que já está fora do tecido social. Transforma-se em um morto vivo. Seu corpo ainda vive, mas está morto enquanto membro da sociedade humana. Para retornar, teria que se valer de uma forte ilusão de futuro para se sentir novamente parte dos humanos. É de ilusões que carece João.

João pergunta desesperado aos gritos: “como faço para voltar a acreditar? Como faço para voltar a viver a minha vida?”

A pergunta ressoa em meus ouvidos, numa transferência que beira ao insuportável de escutar, como se as palavras de João contassem das amarras civilizatórias ainda sem ficção, como se apontassem para um tempo primeiro: alienante e mítico. Eu tenho vontade de fugir. Ouvir João é para mim sair da Matrix (a do filme) em que vivo, e esse “fora da Matrix” é insuportável.

Mas como ajudar a ressuscitar alguém da morte simbólica? Como trazer de volta alguém que deixou de pertencer à espécie humana? Como fazer um ninguém voltar a ser alguém? Como escutar alguém que coloca a única saída possível no sacrifício e na morte?

A possibilidade da vida para João aparece num paradoxo: na própria morte, na morte do corpo, na primeira morte, voltaria a reestabelecer o tecido simbólico e a restauração da Lei primordial. A morte do corpo reestabeleceria seu lugar entre os humanos e refundaria uma ética, uma civilização. Se não há mais lei simbólica, ele mesmo se transformara no pai assassinado da horda primitiva. Seu sacrifício teria valor de assassinato. A civilização o assassinou. O sacrifício seria a prova do crime que reestabeleceria os lugares simbólicos de justiça. Pelo sacrifício, denunciaria o assassinato que ocorreu ainda em vida.

Bibliografia

FREUD, Sigmund. “Reflexões para os tempos de guerra e morte”. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996 (1915).

FREUD, Sigmund. “O mal-estar na civilização”. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996 (1930).

SÓFOCLES. “Antígona”. In: A Trilogia Tebana. 10.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2002

Texto publicado no Correio da APPOA, n°260, out/2016