“Refugiados de Belo Monte” Por Ilana Katz, Eliane Brum e Christian Dunker

Para contribuir com o projeto Refugiados de Belo Monte, acesse o link:

https://www.catarse.me/refugiadosdebelomonte

https://vimeo.com/181716906

O projeto

“Belo Monte é vista por muitos como fato consumado, mais um trágico capítulo da história do Brasil que ficou para trás. Mas e o sofrimento vivido agora, neste exato momento, pelos atingidos, por aqueles cuja vida virou água? Não importa? Que tipo de gente somos nós se o sofrimento do outro não nos comove nem nos move? Se não for por ética, que seja por gratidão: se ainda existe floresta amazônica em pé, é a estas populações que devemos.

Belo Monte foi construída em nome de todos os brasileiros. A questão é: o que vamos fazer por quem paga a conta da destruição do Xingu com a vida?”

A construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, na Amazônia paraense, produziu refugiados de seu próprio país. Famílias que viviam em ilhas do Xingu ou na beira do rio, na zona rural da região, em áreas urbanas de Altamira. Ninguém perguntou a essas pessoas o que queriam, o que sentiam, o que pensavam. Tampouco lhes foi perguntado o que era uma casa para elas. Quem disse o que era uma casa, quem determinou o valor de uma vida, foi aquele chamado nos documentos oficiais de “Empreendedor” – palavra moderna para “Colonizador”, esse personagem tão conhecido da nossa história.

Os refugiados de Belo Monte foram arrancados do mundo ao qual pertenciam e lançados em territórios que não reconhecem nem se reconhecem. Essa situação gerou uma experiência de intenso sofrimento. Em muitos casos, provocou adoecimento.

OBJETIVO

Este projeto busca construir um modelo de intervenção em saúde mental junto à população ribeirinha atingida por Belo Monte, ao qual chamamos de “Clínica de Cuidado”: um dispositivo de atenção ao sofrimento psíquico para atender aqueles que, em curto espaço de tempo, perderam as referências fundamentais de organização e funcionamento da própria vida.


UM POUCO DA HISTÓRIA E DA SITUAÇÃO ATUAL

No controverso processo de implantação da usina de Belo Monte, muitos direitos foram violados. Entre eles, o direito à proteção jurídica. Analfabetos assinaram com o dedo papéis que não eram capazes de ler. Os atingidos foram coagidos a “negociar” diretamente com os representantes do Empreendedor em termos que lhes eram inacessíveis. A Defensoria Pública da União chegou a Altamira para defendê-los no início de 2015, mas a violação de direitos já havia sido em grande parte consumada.

Uma parcela dos atingidos recebeu indenizações e cartas de crédito cujo valor, em muitos casos, não lhes permitiu recompor a vida. Outros foram confinados em unidades padronizadas de conjuntos habitacionais que nada têm a ver com sua cultura. Os laços de vizinhança, assim como os de afeto, foram despedaçados – e a convivência comunitária, destruída. Outros ainda sequer foram reconhecidos como atingidos. Para muitos, o único território que lhes restou foi o do próprio corpo.

Belo Monte, um projeto da ditadura civil-militar, só tornou-se uma realidade na democracia. O leilão da hidrelétrica ocorreu em abril de 2010 e foi vencido pelo consórcio Norte Energia. Ao longo da polêmica construção e implantação da usina, o Ministério Público Federal moveu mais de 20 ações denunciando inconstitucionalidades e violências, entre elas uma ação por etnocídio indígena.

A usina, com custo estimado em cerca de R$ 30 bilhões, foi construída por um conjunto de empreiteiras, entre elas as maiores do país, e financiada em grande parte por dinheiro público, via BNDES. Atualmente, a obra é investigada pela Operação Lava Jato. A Licença de Operação de Belo Monte foi concedida pelo IBAMA, em novembro de 2015, sem que a totalidade das condicionantes tivesse sido cumprida, em mais uma inversão da lógica: aquilo que condiciona o acontecimento virou condição para depois de acontecido.


NESTE CENÁRIO, DE CRISE HUMANITÁRIA, ESCUTAR, TRATAR E DOCUMENTAR É CUIDAR.

André Nader/Arquivo Pessoal


COMO FAREMOS E POR QUE ESTAMOS PEDINDO A SUA AJUDA

1) Formação da Equipe

Uma pequena equipe, composta por três profissionais da área de saúde mental, testou o modelo de intervenção, em julho de 2016, na região de Altamira. Em janeiro de 2017, um grupo maior, formado por 15 profissionais, realizará uma primeira intervenção na região, por um período de 15 dias.

Para formar este grupo, será realizado um curso aberto no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) sobre a realidade da região, as peculiaridades da construção de Belo Monte e os desafios da escuta dos atingidos. Os participantes serão selecionados a partir deste curso, que acontecerá entre setembro e novembro de 2016, seguido por uma rodada de entrevistas e avaliação de experiências.

Todos os professores do curso atuarão sem remuneração. É preciso, porém, bancar os custos de passagens aéreas, alimentação e hospedagem de três palestrantes de fora de São Paulo, no período das respectivas aulas: dois do Pará e um de Brasília.

Todos os terapeutas selecionados atuarão como voluntários. Mas é preciso arcar com os custos das passagens aéreas, assim como hospedagem, alimentação e transporte (voadeiras e carros) pelo período de 15 dias, na cidade de Altamira e região (zona rural, ilhas e beiradões).

É para estes dois momentos, de formação e de atuação da Clínica de Cuidado, que pedimos a sua ajuda.


Lilo Clareto/Arquivo Pessoal

2) Clínica de Cuidado em Ação

população-alvo do projeto é, inicialmente, a de ribeirinhos atingidos pela construção da hidrelétrica de Belo Monte. Não apenas aqueles reconhecidos como atingidos pelo Empreendedor e pelo Governo Federal, mas também os que foram atingidos sem assim serem reconhecidos por essas duas instâncias articuladas na implantação da usina. Ainda que a definição de ribeirinhos não seja consensual nos diversos campos de ação, entendemos que ribeirinho é todo aquele que se diga ribeirinho, pois tem sua vida construída na relação com o rio, porque ali é tecida sua vida econômica e sua experiência comunitária.

A Clínica de Cuidado vai operar no campo da assistência em saúde mental pelo atendimento dos atingidos, onde os atingidos estiverem. A relação desses homens e mulheres, adultos e crianças, com a experiência física de território, cumpre uma função muito particular. Os gestos que apontam coisas, os lugares que mostram, as pessoas que encontram, se por um lado despertam palavras, por outro constroem uma narrativa, ao ocupar o lugar da palavra que não há.


Lilo Clareto/Arquivo Pessoal

3) Promoção de Saúde

Para produzir ações em saúde mental numa situação em que o sofrimento é efeito da destruição dos modos de vida e dos laços comunitários, é fundamental levar em conta os caminhos pelos quais os atingidos por Belo Monte vêm resistindo há anos, assim como as saídas que têm construído para lidar com a violência do processo ao qual foram submetidos.

Durante as viagens de reconhecimento do território e a realização do projeto-piloto, constatamos que há uma grande capacidade de cuidado nas lideranças dos movimentos e organizações sociais. Além de lutar valentemente pelos direitos dos atingidos, estes representantes tornam-se referências na vida dessas pessoas. Assim, passam a ocupar um lugar expressivo na rede de relações e também convertem-se, às vezes sem perceber, em potentes articuladores na construção de novas formas de pertencimento.

Esta é uma dinâmica de promoção de saúde, um processo que acreditamos poder ser ampliado e fortalecido, com a oferta de espaços de escuta, cuidado e trocas de conhecimentos entre esses atores, aliando nossa intervenção às formas de atenção que já existem no território.

Intervenções como esta pertencem ao campo reconhecido como Atenção Psicossocial: um modelo de atenção ao sofrimento psíquico que inclui dispositivos de cuidado abertos e de base comunitária, que acontece no território, contempla suas particularidades e respeita a diversidade de experiências e de saberes.

André Nader/Arquivo Pessoal

4) Documentação e Transmissão da Memória

Os diversos relatos e testemunhos colhidos durante a realização do projeto serão transformados em documento público. Combinados com os registros e memórias materiais já produzidos pelos atingidos por Belo Monte (fotos e vídeos pessoais, poesias, músicas etc), serão devolvidos às fontes testemunhais, para colaborar com a preservação pública da memória coletiva. Esta parte será realizada sob a supervisão do núcleo de jornalismo do projeto.

O objetivo é, por um lado, garantir a permanência, no tempo histórico, da multiplicidade de experiências vividas ao longo da construção da hidrelétrica de Belo Monte, assim como a diversidade de nomeações e de sentidos dados a essas vivências. Por outro lado, a documentação e a elaboração do vivido cumprem o papel de colaborar com a reconstituição da vida de cada um, assim como do tecido comunitário.

A documentação e a transmissão das memórias têm, portanto, duas dimensões. Na esfera pública, coletiva, a de jamais esquecer, para que a violência não se repita. Na esfera privada, pessoal, a de lembrar para poder esquecer e tecer novas experiências.

André Nader/Arquivo Pessoal


POR QUE ESTE PROJETO PRECISA EXISTIR?

As experiências produzidas às margens do Xingu, frutos da catástrofe humanitária em curso, remetem às narrativas acerca do Holocausto e às cenas a que refugiados foram submetidos nos tantos deslocamentos por fome, epidemias e conflitos armados ocorridos nesse momento e ao longo da história da humanidade. Trata-se, no entanto, de um horror com certa particularidade de crueldade: o cidadão pode permanecer no seu país, mas a pátria foi expulsa. Como na guerra, no mesmo lugar em que a vida se organizava de um modo, este modo já não pode mais sustentar a experiência.

A desorganização de todo o sistema de hábitos afetou a condição de subsistência, os laços comunitários e a constituição identitária. Os efeitos são traumáticos. Uma avaliação preliminar aponta que os ribeirinhos atingidos por Belo Monte enfrentam dificuldades para se reconhecerem na nova forma de vida que lhes foi imposta. As pessoas adoecem, sintomas físicos tomam conta da experiência. São as hipertensões, as diabetes, os problemas cardíacos e os AVCs, as paralisias físicas e as depressões que os ribeirinhos entrevistados citam como acontecimentos posteriores à desconfiguração do seu modo de vida.

Tais eventos parecem responder a formas comuns de sofrimento, mas resistem aos tratamentos convencionais das doenças no corpo. E, assim, permanecem, já que não encontram o tratamento para a experiência psíquica que está na gênese do adoecimento, como se suas doenças estivessem desconectadas do contexto em que vivem.

Diante deste modo extremamente particularizado de sofrimento, é preciso escutar. É preciso escutar os “atingidos” de tantas maneiras. Escutar coletivamente, mas também a cada um. E considerá-los na relação com a sua própria experiência de adoecimento, ao acolhê-los em sua maneira singular de sofrer.

Partimos, aqui, da hipótese clínica de que a violência cometida na construção e na operação de Belo Monte constitui uma experiência traumática no campo do sujeito. Porém, a tomada do trauma como síndrome/transtorno produziu uma patologização da experiência, o que faz do sujeito uma “presa” de seus sintomas e de seus tratamentos.

O processo de produção de diagnósticos psiquiátricos (depressão, ansiedade, estresse, além de desencadeamentos psicóticos) e de Clínica Geral (Acidentes Vasculares Cerebrais, cardiopatias, hipertensão etc) realizado em torno da experiência de Belo Monte adquire uma conotação política, com um contorno bastante específico. Ela pode ser usada para desimplicar o Estado e o Empreendedor na construção de um modo de adoecer que, como já foi apontado, é efeito de sua intervenção.

O diagnóstico, quando desafetado pela vida, pode legitimar afirmações preocupantes. Exemplos recolhidos durante o projeto-piloto: “Seu Fulano não sofre os efeitos da perda do seu modo de vida, ele é psicótico”; “Dona Beltrana não sofre por ter se separado de toda a comunidade, ela é cardíaca, ou está deprimida”. É dessa maneira que os sintomas de cada um adquirem reconhecimento social e lhes conferem um lugar. Mas, no mesmo movimento discursivo, o adoecimento vivido por essas pessoas é desvinculado do processo de implantação de Belo Monte. E, assim, tanto o Estado quanto o Empreendedor são desresponsabilizados na constituição do cenário em que o adoecimento dos corpos acontece.

Belo Monte precisa ser compreendida também na dimensão dos corpos dos atingidos, dos corpos que sofrem. Estes refugiados do seu próprio país precisam ser cuidados em seus próprios termos. E sua experiência documentada.


Lilo Clareto/Arquivo Pessoal


QUEM SOMOS?

Eliane Brum: idealizadora do projeto, é jornalista, escritora e documentarista (site/colunas)

Christian Dunker: coordenador acadêmico, é psicanalista, professor titular do Instituto de Psicologia da USP – Universidade de São Paulo (Lattes)

Ilana Katz: coordenadora clínica, é psicanalista e pós-doutoranda no Instituto de Psicologia da USP (Lattes)

Debora Noal: psicóloga, doutoranda em Desenvolvimento Humano e Saúde no Instituto de Psicologia da UnB – Universidade de Brasília, membro da organização Médicos Sem Fronteiras – MSF

Ana Cecilia Moraes Weintraub: psicóloga, doutoranda em Psicologia no Instituto de Psicologia da USP, membro da organização Médicos Sem Fronteiras – MSF (Lattes)

Maíra Brum Rieck: psicanalista, membro da APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre), psicóloga, mestre em Educação pela UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul e membro do Clínicas do Testemunho RS

André Nader: psicólogo, acompanhante terapêutico e mestrando do Instituto de Psicologia da USP

Cássia Gimenes Pereira: psicóloga, acompanhante terapêutica e assessora de equipe no NAAPA – Núcleo de Apoio e Acompanhamento para a Aprendizagem da Secretaria Municipal de Educação/SP

Orçamento

Os gastos deste financiamento estão divididos nas seis categorias acima. A expedição que queremos realizar em Janeiro de 2017, quando serão realizados os atendimentos, a coleta dos depoimentos e as ações de promoção de saúde, é onde despenderemos a maior parcela do dinheiro – 61,7% -, dividido da seguinte forma:

Com a maior parte da hidrelétrica construída, as rotas que existiam até Altamira foram descontinuadas e as empresas que seguem fazendo vôos para lá aumentaram consideravelmente o valor das passagens, com isso, 43,48% do gasto será com a compra das passagens aéreas.


Contato: Para saber mais informações sobre o projeto, o orçamento ou sobre como pode nos ajudar, escreva para: clinicadecuidado@gmail.com


Recompensas

– Reedição ainda não lançada, com texto inédito, de O Olho da Rua – uma repórter em busca da literatura da vida real, livro hoje esgotado (válida apenas para os PRIMEIROS 10 APOIADORES que escolherem a recompensa no valor de R$250,00)

– Foto de Lilo Clareto impressa em FineArt – papel 100% algodão, Photo Rag Baryta gsm315 – no tamanho 40cm x 60cm.

– Livros autografados de Christian Dunker – Mal-Estar, Sofrimento e Sintoma, ed. Boitempo, 2015 e Eliane Brum – A Menina Quebrada, Arquipélago Editorial, 2013

– Livro Leituras e leitores de Lacan em três aforismos de Ilana Katz, Cecilia Santana, Izabel Abreu Kisil (orgs.), ed. Intermeios, 2015

– Convite para o evento com Eliane Brum e Christian Dunker, que vão expor a situação de Belo Monte e seu impacto sobre a população local.

– Quatro fotos postais com imagens do Rio Xingu (três inéditas + card/logo do projeto)

– Link para assistir gravação do evento com Eliane Brum e Christian Dunker, que vão expor a situação de Belo Monte e seu impacto sobre a população local.

– O nome do apoiador será incluído no documento público que será construído a partir do contato com os ribeirinhos, para expor o sofrimento produzido por Belo Monte.


Agradecimentos:

– Osmar Zampieri, pela produção do nosso vídeo. Contato: osmar@zampieri1.com.br
– Lilo Clareto, pela cessão das fotos para ilustrar o texto do projeto e pela doação de uma foto como “recompensa”. Contato: lilo.clareto@uol.com.br
– Centro de Estudos Madalena Freire, da escola Carandá Vivavida, por ceder o espaço onde ocorrerá o evento
– Julia Sanches, pela tradução do texto para o inglês. Contato:ju.gomez.sanches@gmail.com
– Óscar Curros, pela tradução do texto para o espanhol. Contato: oscarcurros@dialogointercultural.com
– Tito Montenegro, da Arquipélago Editorial, pela doação do livro O Olho da Rua – uma repórter em busca da literatura da vida real.